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NOTA DA APQC EM DEFESA DA DEMOCRACIA E DA PESQUISA CIENTÍFICA NO BRASIL

 

A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), entidade fundada em 1977 com a missão de defender a pesquisa científica, os institutos de pesquisa e a carreira dos pesquisadores, sente-se no dever de manifestar a sua preocupação em relação às eleições que serão consumadas no próximo dia 28 de outubro.
Somos uma entidade apartidária, plural e independente, mas construída sobre sólidos princípios democráticos. Como nunca antes desde a redemocratização, nossa democracia está seriamente ameaçada por uma das candidaturas à Presidência da República. Para nós, pesquisadores científicos, a democracia é um valor inegociável e, portanto, fazemos um alerta à nossa categoria.
Além das reiteradas ameaças feitas aos direitos humanos, como a exaltação da tortura e a naturalização do racismo, da misoginia e da homofobia, o candidato Jair Bolsonaro coloca em risco também o estado de bem estar social, as empresas públicas, as estatais e a carreira dos servidores públicos, entre elas a dos pesquisadores científicos. Não se trata de mera especulação da APqC, uma vez que o próprio candidato e seu vice têm dado reiteradas declarações de que atacarão o funcionalismo público logo nos primeiros meses de seu eventual governo.
Entre as medidas que serão aplicadas estão: a privatização ou extinção das instituições públicas; a privatização das universidades públicas e o fim do ensino superior gratuito; a demissão em massa de servidores concursados; a extinção do Ministério do Meio Ambiente e dos seus órgãos de defesa, como o Ibama e o ICMBio, e outros retrocessos graves, de cunho autoritário, cujas consequências para o desenvolvimento do Brasil serão catastróficas.
A conceituada revista científica Nature fez recentemente um alerta a todos os pesquisadores ao lembrar que, como deputado, Bolsonaro votou diversas vezes com a bancada ruralista, que busca ativamente enfraquecer as regulamentações ambientais, propôs tirar o Brasil do acordo climático de Paris em 2015 e eliminar os ministérios da Ciência e do Meio Ambiente, reorganizando-os sob o Ministério da Agricultura. Citou ainda que, na região amazônica, Bolsonaro está buscando promover a expansão agrícola e industrial em detrimento das proteções ambientais e dos direitos das comunidades indígenas, o que pode resultar em uma tragédia ambiental e humanitária sem precedentes em nossa história.
Nós, pesquisadores científicos, que zelamos pela Ciência – pilar do desenvolvimento nacional – não podemos compactuar com uma candidatura que prega abertamente o desmonte do Estado, o que significará o sucateamento ou o fim da maioria dos institutos de pesquisa e de nossas profissões.
Viva a democracia! Viva a ciência!

Campinas, 15 de outubro de 2018

 

 

 


Pesquisador do IAC apresenta técnica inovadora na produção de batatas-semente

 

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           O pesquisador do Instituto Agronômico (IAC) de Campinas, José Alberto Caram de Souza Dias, realizou na última sexta-feira (17/08) uma visita técnica ao Sítio Palmeiras, do produtor agrícola Mauro Cezar Dinardi, no município de Bebedouro. Na ocasião, Caram apresentou para autoridades a tecnologia do plantio de batatas-semente feito a partir dos brotos do próprio tubérculo – tecnologia desenvolvida por ele e que há três anos vem sendo aplicada por Dinardi.

         Estiveram presentes, entre outros, o Secretário da Agricultura, Abastecimento e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Francisco Jardim, o prefeito de Bebedouro, Fernando Galvão Moura, e Juninho Trevisan, diretor do Grupo Trevisan, investidor e parceiro na implantação da tecnologia em Bebedouro. “Hoje o Sítio Palmeiras ostenta uma produção de quase um milhão de minitubérculos gerados a partir de brotos que, antes, eram descartados pelos produtores e pela indústria”, explicou Caram.

        Segundo ele, além de batatas-sementes livres de vírus, a tecnologia inovadora garante ao produtor redução de custos e aumento na produção. Isso ocorre, nas palavras do pesquisador, porque os produtores que aderiram à técnica passaram a necessitar cada vez menos, ou a não necessitar, da importação de sementes de batata de países como Holanda, Alemanha e França. “Os pequenos produtores que adotaram a nossa tecnologia passaram a produzir suas próprias batatas-sementes”, contou.

         Para o Secretário da Agricultura, Francisco Jardim, o trabalho desenvolvido pelo pesquisador do IAC vem causando uma “revolução silenciosa no agronegócio”. Ele ressaltou ainda a importância da pesquisa científica na busca por soluções que garantam a soberania e o desenvolvimento nacional: “Estamos muito orgulhosos e otimistas com relação ao futuro dessa tecnologia, pois certamente ela será adotada em escala mundial, reduzindo a dependência do Brasil”, disse.

        O produtor Mauro Cezar Dinardi comemorou o pioneirismo da experiência em Bebedouro e afirmou que a técnica de Caram o “salvou” após um período de crise econômica que quase o obrigou a vender a propriedade. “Confiei no projeto do Dr. Caram e o Grupo Trevisan me deu respaldo. Hoje estamos produzindo minitubérculos em oito estufas e vamos chegar a doze até o fim do ano. É uma grande vitória”, afirmou.

Entenda como funciona a tecnologia do broto da batata-semente

            Conforme explica o pesquisador José Alberto Caram, a técnica é simples e reduz os custos de produção em cerca de 40% (o equivalente à despesa com a compra das batatas-sementes importadas). O plantio é feito com o broto da própria batata-semente, que geralmente é descartado na produção convencional. “É comum que o produtor, antes de plantar a batata-semente importada, jogue fora os brotos. Nós aproveitamos justamente estes brotos que iam parar no lixo”, explica.

         O broto é plantado e continua se desenvolvendo para dar origem, mais tarde, a pequenas batatas (minitubérculos). Estas pequenas batatas serão, por fim, utilizadas como sementes e darão início ao cultivo no campo definitivo. “Temos enfrentado oposição das grandes empresas estrangeiras que exportam batatas-semente ao Brasil, mas vamos adiante. Ciência é sinônimo de persistência”, diz.

          Segundo o pesquisador, cada broto dá origem, em média, a três minitubérculos e cada um destes, por sua vez, dá origem a uma planta. “A grande descoberta que fizemos é a de que centenas de milhares de brotos, que são destacados dos tubérculos livres de vírus, também estão livres de vírus e suportam transporte de longas distâncias para serem utilizados como ‘sementes’ na tecnologia do IAC”, diz.

          Entre as vantagens da técnica está o fato de que os brotos são livres de vírus e, portanto, garante ao produtor tubérculos de alta sanidade. “A técnica permite uma drástica redução das viroses nos cultivos e toda a despesa que elas exigem para o seu controle, dispensando, por exemplo, a aplicação de agrotóxicos”, afirma.

            Por conta deste trabalho, o pesquisador do IAC recebeu, em 2015, o prêmio Josué de Castro na categoria pesquisa científica, concedido pelo Governo do Estado de São Paulo. O prêmio tem o objetivo identificar e difundir iniciativas voltadas à formulação de soluções concretas para o combate à fome e a promoção da segurança alimentar e nutricional. Caram é considerado ainda o pioneiro no mundo em experimentos que comprovam o potencial de brotos destacados de tubérculos como “material de propagação”.