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Posts da categoria ‘Uncategorized’

IAC desenvolve método de classificação por imagens digitais para evitar perdas em frutas de caroço

Foto: Martinho Caires

As perdas de frutas e hortaliças constituem realidade que prejudica todo o mercado. Os prejuízos são sentidos nos bolsos de agricultores e dos demais profissionais dessas cadeias de produção, além de atingir também o orçamento dos consumidores. Com pesquisas na área de pós-colheita, o Instituto Agronômico (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, desenvolveu o método de classificação por imagens digitais, capaz de separar frutas de caroço, como ameixas, nectarinas e pêssegos. Este é um dos resultados de estudos voltados a técnicas que contribuem para reduzir as perdas desses e outros alimentos.

“Fazemos a imagem do produto e a classificamos por cor e tamanho por meio de processamento da imagem, usando os padrões estabelecidos em laboratório”, explica a pesquisadora do IAC, Juliana Sanches de Laurentiz. Ela diz que é possível selecionar e classificar as frutas quanto ao tamanho e/ou coloração da casca com precisão e confiabilidade.

Dependendo do produto, é viável classificá-lo, por exemplo, em grupo de cultivares com características semelhantes. Dentro deste, abre-se o subgrupo, de acordo com a coloração de casca e/ou polpa. “A classificação em classe pode ser feita de acordo com o tamanho e em subclasse, conforme a coloração de fundo da epiderme; a categoria pode ser definida de acordo com a qualidade, entre outras características”, comenta.

A falta de classificação contribui para ocorrer prejuízo após a colheita. Nesse caso, a classificação constitui a separação do produto em lotes visualmente homogêneos e com descrição de características mensuráveis, obedecendo a padrões pré-estabelecidos. No Brasil, as perdas são estimadas em torno de 40% de frutas e hortaliças.

A equipe do IAC tem trabalhado com a técnica de visão de máquina, que consiste na caracterização de um material por meio de imagens digitais. Para atender às exigências de qualidade do mercado, sistemas de classificação estão sendo desenvolvidos por meio do uso de sensores e dispositivos eletrônicos.

De acordo com a pesquisadora do IAC, a visão de máquina é a definição dada ao conjunto de processos utilizados para descrever objetos físicos a partir de imagens adquiridas por sensor. “Os equipamentos e programas computacionais disponíveis no mercado são usados para analisar as imagens e o processo compreende a captura, o processamento e a análise das imagens”, afirma.

Os pesquisadores relatam o uso da visão de máquina para tarefas como detecção de danos em frutas e hortaliças, classificação por variedade, tamanho, formato, volume, coloração da casca, índice de maturação e qualidade desses alimentos.

Junto ao também pesquisador do IAC, Antonio Carlos Loureiro Lino, Juliana tem recorrido a softwares para habilitar o sistema de seleção e classificação por meio do reconhecimento da forma, tamanho, volume, cor e danos mecânicos e/ou fisiológicos de diversos frutos.

As pesquisas estão na fase de padronização do método. Já foram estudados padrões para a classificação por tamanho e coloração da casca de nectarinas, ameixas, pêssegos, tomates, laranja e lima ácida. Esses padrões por classificação também foram organizados por formatos de pêssego, pimentão e morango, além de identificação de danos mecânicos e doenças em pêssegos e ameixas.

Produtos sem padronização e mal classificados, embalagens inadequadas, falta de rastreabilidade e desconhecimento das boas práticas de colheita e pós-colheita resultam em manuseio excessivo e reclassificação dos produtos, segundo a pesquisadora do IAC, da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA).

Ela cita como exemplo uma situação com o tomate: classificado quanto à coloração e acondicionado em caixas de 20 quilos, que por algum motivo não segue para o mercado no mesmo dia e acaba “dormindo” no galpão de beneficiamento. “No outro dia, a coloração da casca está diferente e o tomate pode passar por classificação novamente, aumentando o manuseio desnecessário e, por consequência, o aumento de danos ao produto”, diz.

A reclassificação pode ocorrer em diferentes pontos da cadeia, como as centrais de abastecimento, galpão de beneficiamento, supermercados, feiras e outros, gerando desconfiança nos setores de comercialização.

A classificação inadequada desperta desconfiança por veicular informações inverídicas acerca do produto. Isso ocorre, por exemplo, nas situações em que o rótulo da caixa do produto traz determinado tamanho, mas na verdade grande parte dos frutos pode ter tamanhos variados. Esse erro, além de trazer descrédito à relação comércio e consumidor, afeta diretamente a qualidade e o preço do alimento.

Recursos

A equipe do IAC busca por parcerias com empresas ligadas à produção de mesas classificadoras de frutas e hortaliças para montar um protótipo de mesa de classificação. Com isso, será possível avançar nos testes práticos e ajustes das metodologias desenvolvidas. Assim, essa tecnologia poderá ser implantada em mesas de classificação automatizadas, usando as imagens digitais e, dessa forma, facilitar a classificação dos produtos.

Os usuários dessa tecnologia serão os produtores que possuem galpão de beneficiamento na propriedade rural ou em galpões próximos aos mercados de distribuição e venda.

Por enquanto, as pesquisas foram conduzidas com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) para os estudos com ameixa, pêssego e nectarina. Os recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) foram para os estudos com pimentão, morango, tomate, limão e laranja, com bolsas de produtividade em desenvolvimento tecnológico e extensão inovadora e do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação em Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PIBITI).

Fonte: Assessoria de Comunicação

Ciência que salva vidas

A pandemia provocada pelo vírus SARS-COV-2 expôs a face da ciência que resolve problemas, que salva vidas, que é indispensável. A sociedade reconheceu sua importância.
Ficou e permanecerá marcante a atuação de nossas instituições na área da saúde, mas a importância dos institutos públicos de pesquisa vai além. Não se limita à contenção de uma pandemia, inúmeros outras ações foram desenvolvidas ou estão em andamento. São anos de história dos Institutos de Pesquisa, alguns, inclusive, centenários, que trabalham em prol da sociedade gerando riquezas, sustentabilidade, saúde pública e igualdade social. Viabilizaram grandes arranjos agroindustriais ligados à citricultura, ao café, à cana -de-açúcar, soja, algodão entre outros, todos de importância indiscutível do ponto de vista do emprego e da economia. Suportam tecnologicamente à viticultura, à produção de hortifruti de tão variadas espécies. A produção de amendoim, feijão, borracha da seringueira, de florestas plantadas de espécies de importância econômica para produzir madeira, papel e outros. Viabilizam tecnologicamente a proteína animal, pela aquicultura, suinocultura, bovinocultura e avicultura. Suportam tecnicamente a produção animal e vegetal transferindo tecnologias voltadas às instalações, à alimentação, manejo e sanidade, novas variedades, nutrição e controle de pragas e doenças. Atuam nas questões relacionadas ao planejamento territorial, uso e ocupação do solo e na identificação de riscos geológicos.
O papel dos institutos públicos de pesquisa precisa ser entendido dentro do conjunto de instituições do sistema paulista de ciência, tecnologia e inovação. Papel que difere daquele que cabe à universidade isoladamente, e ambos se complementam.
Essa visibilidade da ciência hoje não pode ser perdida no pós-pandemia, e está a exigir maior relacionamento das instituições com a sociedade e de maneira contínua para ser efetivamente reconhecida como meio de solucionar problemas. Papel importante, também, terá a seriedade da divulgação da ciência produzida, do ensinar conceitos básicos, da informação de avanços tecnológicos e mesmo de suas limitações para permitir a análise crítica pela sociedade.
Deve-se ter claro, entretanto, que há problemas que afetam os institutos públicos de pesquisa científica do Estado de São Paulo de algum tempo, o mais grave refere-se a recursos humanos. Não se tem reposição de pessoal há muito tempo, os últimos concursos significativos ocorreram em 2003 e a defasagem salarial está presente, evidenciada por salários diferentes para integrantes de mesmas funções e carreira.
Não se defende repor quadros na mesma quantidade de momentos áureos dos Institutos, trata-se de renovar quadros. Hoje, áreas vitais, inquestionavelmente importantes para suprir de tecnologia, conhecimentos e inovação a demanda da sociedade estão reduzidas e mesmo cessaram atividades pela falta de pessoal, outras que deveriam ser objeto de atenção da pesquisa por representarem novos campos ou recursos tecnológicos não são agregadas. Perde-se conhecimento não codificado e o conhecimento acumulado, não se transmite, a tempo, informações, experiencias entre os pares, não se cria a importante cadeia de conhecimentos essencial para efetividade das ações de pesquisa.
E no pós-pandemia, é preocupante a incerteza para que esta situação aponta. E mais, por poder se agravar pela iminente falta de recursos, pelas ações de redução de investimentos, pela alta faixa etária de grande parte dos pesquisadores científicos em atividade, pela escassez de pessoal de apoio, pela ameaça que tudo isso representa para o futuro da carreira de pesquisador científico que tem por base a avaliação sistemática dos integrantes por mérito.
Há de se lembrar, também, o problema de fomento de ciência e tecnologia no âmbito federal afetando desde agora a formação de recursos humanos e o desenvolvimento tecnológico e que não se prevê diferente nos próximos anos. A busca por recursos de fomento mesmo no Estado de São Paulo, competitivos, não se concretiza em montante desejado, pois, com equipes desfalcadas a capacidade de firmar novos compromissos com financiamentos fica limitada.
Esse quadro de conquistas e perdas deve ser objeto de conhecimento da população, e da atenção dos dirigentes e governantes. É o desafio proposto.

João Paulo Feijão Teixeira é engenheiro agrônomo e presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC)

Artigo original publicado no Correio Popular, de Campinas (SP), em 28/02/2021

Presidente da APqC diz que manterá vigilância sobre empresa que ganhou concessão de uso do Jardim Zoológico e Botânico de SP

O presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), Dr. João Paulo Feijão Teixeira, em entrevista à Rede TV News, manifestou preocupação com a concessão do Jardim Zoológico e do Jardim Botânico de São Paulo à iniciativa privada. Ontem, a empresa vencedora ofereceu R$ 111 milhões pelo direito ao uso comercial destes espaços, embora o edital mantenha o governo estadual como responsável pela proteção de espécies ameaçadas. Segundo Teixeira, a privatização merecerá “ação e vigilância permanente” da APqC, no sentido de “preservar aquilo que interesse diretamente a pesquisa científica no Estado de São Paulo” e o trabalho dos pesquisadores. Clique aqui para assistir a reportagem na íntegra (a matéria sobre a concessão pode ser vista a partir de 16:35 de vídeo).

“E assim acaba o mundo…”

“… não com uma explosão, mas com um gemido”, concluía T. S. Eliot, em The Hollow Men . Uma pandemia não é menos destrutiva que uma guerra. Pode, no entanto, ser desqualificada, total ou parcialmente. Sejamos claros: em nenhum momento a COVID-19 assolou o Brasil como agora. Crescem as internações e mortes. Disseminam-se variantes virais, provavelmente mais transmissíveis e talvez causando doença mais grave. Pior: é possível que essas variantes escapem à imunidade conferida pelas vacinas.
Que essa não é uma situação sem esperança demonstram os exemplos da Nova Zelândia, Alemanha e Espanha. E o movimento coerente (ainda que tardio) do município de Araraquara, no interior paulista. Porém vivemos uma epidemia de cegueira que ultrapassa as previsões de Saramago. O pacto coletivo de autoengano consistia em negar o que ocorre na Europa. Agora se estende a ignorar o colapso da cidade vizinha.
Como entender que Araraquara e Jaú estejam em lockdown enquanto Bauru, a 55Km da última, faz passeatas pelo direito de aglomeração? Sem dúvida esse é um caso para análise em antropologia e ciências do comportamento. Não que se menosprezem os danos econômicos, sociais e psicológicos do distanciamento. Mas na emergência da saúde pública, o valor intrínseco da vida deve ser reforçado. Não sabemos tudo, mas já acumulamos fortes evidências. As “medidas não farmacêuticas”, incluindo distanciamento social por fechamento de comércio, inibição de aglomerações e uso rigoroso de máscaras são o único (amargo) caminho para interromper a progressão da COVID-19.
Não conseguiremos vacinar a tempo. É possível que o vírus se antecipe à vacina, com suas mutações de escape. A transmissão do coronavírus gera oportunidades para surgimento de variantes. É urgente, pois, interrompê-la. Mas se continuarmos a pensar que Araraquara e Jaú são longínquas ilhas do Pacífico marcharemos rapidamente para o colapso da saúde. Não no Estado de São Paulo, mas no país.
Passamos pela fase da ilusão de “enterros falsos”. Muitos de nós já tiveram vítimas fatais na família. Também já estão soterradas as pílulas milagrosas, cloroquina, ivermectina e nitazoxanida. Os antivirais com resultados promissores são novos, caros, inacessíveis. O prefeito de Araraquara já menciona dificuldade em conseguir oxigênio. O caos está aqui, está em todo lugar.
Pesa sobre nós uma escolha. De um lado temos o darwinismo social, em que aceitaremos a morte de centenas de milhares como uma pequena inconveniência suportada em nome da economia. Do outro, a chance de aprender com as lições positivas e negativas de outros países. Como bom exemplo, temos a Nova Zelândia. No extremo oposto, os Estados Unidos. Ainda há tempo para deixarmos de bater continência a réplicas da Estátua da Liberdade e reconhecermos que Trump levou seu país ao fundo do poço da saúde pública.
Não será o fim do mundo, mas já é uma catástrofe sem precedentes. Silenciosa, exceto pelos ruídos de ambulâncias e ventiladores mecânicos, quando existem. Ou pelos gemidos daqueles a quem falta o ar. Uma agonia tão intensa e destrutiva quanto bombardeios.
Manipular politicamente o boicote às medidas óbvias de contenção da COVID-19 foi a receita para o caos, tanto nos Estados Unidos quanto no Amazonas. Não é muito desejar que aprendamos com nossos erros. “O que a vida quer da gente”, diria Guimarães Rosa, “é coragem”.

Assinam:

Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza , Professor Associado da Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista (UNESP). Presidente Eleito da Sociedade Paulista de Infectologia, diretor da International Federation of Infection Control (IFIC) .
Luís Fernando Aranha Camargo , Professor Adjunto de Infectologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
Dimas Tadeu Covas , Professor Titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (USP). Diretor do Instituto Butantan.
Marcos Boulos , Professor Titular aposentado da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)
Rodrigo Nogueira Angerami , Médico infectologista, Coordenador do Núcleo de Vigilância Epidemiológica, Hospital de Clínicas, Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Coordenador Nacional do Program for Monitoring Emerging Diseases (ProMED) da International Society of Infectious Diseases .
Benedito Antônio Lopes da Fonseca , Professor associado da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (USP)
Eduardo Massad , Professor Titular da Fundação Getúlio Vargas- RJ, Professor Titular Aposentado da Universidade de São Paulo, Professor Honorário da London School of Hygiene and Tropical Medicine.
Francisco Coutinho , Professor Senior do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina de Universidade de São Paulo (USP)
Gonzalo Vecina , Professor da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo (USP)

Pesquisas do Instituto Agronômico de Campinas transformam mercado e consumo da mandioca no Brasil

Tipicamente brasileira, a mandioca faz parte da cultura alimentar do Brasil, tendo espaço na alimentação do dia a dia e até mesmo na alta gastronomia. O que pouca gente sabe é que por trás desse produto, considerado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o alimento do século XXI, há muita ciência e tecnologia. Esse alimento consegue atravessar décadas por carregar forte bagagem científica, em que o Instituto Agronômico (IAC-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, é o protagonista.

Desenvolvida pelo Instituto Agronômico, por exemplo, a mandioca IAC 576-70 é conhecida pelos agricultores de todo o Brasil como Amarelinha, por ter polpa de coloração creme-amarelada quando crua e amarelada quando cozida. O material produz cerca de 30 toneladas de raízes por hectare, 28% superior às variedades de mesa de polpa branca, aproximadamente, e possui 10 vezes mais betacaroteno, precursor da vitamina A.

“A Amarelinha tem 250 UI (Unidades Internacionais) por 100g de polpa de vitamina A, aproximadamente, sendo que as variedades de polpa branca possuem 20 UI por 100g. O IAC continua suas pesquisas para desenvolver materiais mais produtivos e enriquecidos com nutrientes. Esperamos lançar em breve novas variedades que podem chegar a mais de 1.000 UI por 100g de polpa de vitamina A, nutriente importante para a visão e o sistema imunológico”, explica José Carlos Feltran, pesquisador do Instituto, ligado à Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA).

Para o consumidor, o material do IAC tem mais duas características importantes: cozinha em cerca de 30 minutos e tem baixo teor de ácido cianídrico (HCN), veneno que pode ser encontrado em raízes de mandioca, principalmente naquelas voltadas à produção de farinhas e fécula, na indústria.

Além da vantagem produtiva e nutricional, Feltran explica que a Amarelinha transformou o mercado da mandioca de mesa para um sistema de produção de agronegócios. “Antes do seu lançamento, na década de 1980, as mandiocas de mesa eram vendidas em caixas para os centros de distribuição, como a Ceasa e Ceagesp. Hoje, o produtor consegue descascar essa mandioca e resfriar ou mesmo cozinhar e congelar, colocando no mercado um produto de alto valor agregado”, afirma.

Essa transformação é verificada em números. Segundo o pesquisador do IAC, no sistema tradicional de venda de mandioca de mesa, o produtor ganha cerca de R$ 0,80 centavos por quilo, em fevereiro de 2021, valor considerado alto. Com o trabalho de descascamento e inserção do produto na cadeia de frio, o mandiocultor pode ganhar mais de R$ 2,50, por quilo.

Novos mercados

Feltran afirma que novos mercados podem surgir para a mandioca, como o de farinhas especiais, produzidas com as variedades de mesa enriquecidas com nutrientes, como a Amarelinha e demais materiais em estudo pelo IAC. “Estamos fazendo testes com variedades que, além do alto índice de vitamina A, têm quatro vezes mais cálcio do que as mandiocas de hoje comercializadas. O mercado de farinha especiais é uma possibilidade, pois teríamos uma farinha enriquecida com esses nutrientes”, afirma.

Para isso, porém, não basta apenas usar os materiais de mesa do IAC para a produção convencional nas farinheiras, sendo necessários ajustes na produção. De acordo com o pesquisador, ocorre perda de nutrientes no momento da produção das farinhas e, para evitá-la ou reduzi-la, é recomendado o uso de embalagens especiais e conservação do produto em ambiente mais fresco.

O pesquisador do Instituto da Secretaria também cita que a parte aérea da planta da mandioca pode ser utilizada para alimentar animais de produção como aves e ruminantes, após processo de ensilagem ou fenação. “Como são materiais enriquecidos, eles podem trazer benefícios enormes para a produção de animais, podendo melhorar, inclusive, as características reprodutivas”, afirma.

Pesquisa integrada para gerar renda ao produtor e alimentos melhores para os consumidores

O desenvolvimento das pesquisas com mandioca no IAC se iniciou na década de 1930. De acordo com Feltran, ao longo desses anos, o programa de melhoramento genético do Instituto contou com diversos pesquisadores e técnicos, que trabalharam e ainda trabalham de forma conjunta para desenvolver novos materiais e transferir essas tecnologias e conhecimentos para os agricultores.

“Hoje, testamos os novos materiais na fazenda do IAC, em Campinas, mas também em diversas unidades da APTA Regional e produtores rurais. Contamos ainda com técnicos da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS), também da Secretaria, para levar conhecimento aos agricultores paulistas. É um trabalho feito em conjunto, que contou com várias gerações de pesquisadores e técnicos agrícolas”, conta.

Produção paulista de mandioca

Atualmente, o Brasil produz 22 milhões de toneladas anuais de mandioca de mesa e para a indústria, cultivadas em 1,8 milhão de hectares, aproximadamente. Toda essa produção é utilizada para consumo de mesa e para a produção de farinha, amido e polvilho. O estado do Pará é o maior produtor nacional.

São Paulo produziu 1.363,7 mil toneladas de mandioca para indústria, cultivadas em 63,2 mil hectares, principalmente nas regiões de Assis, Presidente Venceslau e Marília, que juntos somam mais de 50% da produção paulista, segundo dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA-APTA), na safra 2019/2020.

As lavouras paulistas produziram 247,1 mil toneladas de mandioca de mesa, na safra 2019/2020, em área de 19,8 mil hectares, principalmente na região de Mogi Mirim, que contribuiu com mais de 30% da safra estadual. “A grande totalidade desta produção é centrada nas cultivares de mandioca desenvolvidas pelo IAC, como exemplo podemos citar além da IAC 576-70 (mesa), as cultivares IAC 13, IAC 14 e IAC 90 destinadas ao uso industrial. É o trabalho do Instituto gerando renda no campo e bem estar ao cidadão paulista”, afirma Feltran.

Fonte: Assessoria de Comunicação / APTA

Pesquisador do Instituto Biológico explica como identificar e prevenir a presença de cupins em árvores

“Minha árvore tem cupins?” é uma dúvida muito frequente entre a população. Mas como saber se uma árvore está infestada? O pesquisador do Instituto Biológico (IB-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Francisco José Zorzenon, explica o que são cupins e como eles podem ser identificados. Neste verão, a Secretaria faz uma série de textos especiais para tratar das chamadas pragas urbanas.

“Os cupins são criaturinhas incríveis, mas em alguns casos muito destrutivas. Eles são insetos atualmente considerados baratas pela ciência”, afirma. De acordo com Zorzenon, os cupins são insetos sociais, ou seja, possuem indivíduos que realizam diferentes tarefas em seu ninho, também chamado de colônia. Existem os cupins operários, que praticamente cuidam de tudo, desde a procura por alimento até a construção dos ninhos. Há os soldados, com a função de proteger a colônia de inimigos, como as formigas; e os reprodutores, chamados reis e rainhas, pais de todos os cupins da colônia.

“Em algumas espécies de cupins, os reis e rainhas podem viver por 20 a 30 anos ou mais. Uma rainha, dependendo da espécie, pode colocar mais de 30 mil ovos por dia. Por isso, algumas vezes, as colônias de cupins são enormes, semelhantes às cidades em sua devida proporção”, explica o pesquisador do IB.

Todos os cupins são agentes ecológicos importantes, pois possuem a função de decompor os vegetais, principalmente a madeira, estando ela na natureza ou mesmo nas cidades. Eles também servem de alimento para aves, sapos e peixes, por exemplo. “Mas da mesma forma em que são muito importantes para o meio ambiente, podem também ser considerados pragas levando à grandes prejuízos econômicos”, diz.

Cerca de três mil espécies de cupins são conhecidas no mundo e 300 delas, aproximadamente, são encontradas no Brasil. Entre as espécies, os cupins subterrâneos são os mais prejudiciais para as árvores. Chamados de cupins de solo, eles constroem suas colônias nas raízes de árvores, casas e prédios, sendo praticamente impossível de serem identificados.

“Qualquer árvore pode ser atacada por cupins, sendo que um ataque severo, associado a outros fatores, pode levar a queda da árvore prematuramente. Podas mal feitas, falta de adubação e espaço para as raízes, falta de planejamento e plantio de espécies inapropriadas ao local, vandalismos e descuidos em geral, favorecem o aparecimento de pragas e doenças nas árvores urbanas, o que causa transtorno, principalmente no período de chuvas, com a queda dessas árvores”, explica.

Como saber se a árvore está infestada?

Segundo o pesquisador do IB, existem sinais que podem mostrar se uma árvore está ou não com cupins, apesar de a identificação não ser tão fácil.

“Troncos e galhos com a presença de caminhos semelhantes a tubos ou cordões terrosos são um dos principais indicadores da presença de cupins de solo. Estes caminhos terrosos são formados por solo e fezes de cupins e servem como verdadeiras avenidas por onde passam os operários à procura por alimento e de soldados que os protegem. Observamos a presença dos insetos quando mexemos nesses caminhos e logo após, vemos uma grande quantidade de cupins saindo deles”, explica.

Outra dica é observar a revoada de siriris ou aleluias, saindo de ocos de árvores infestadas, sendo um forte indicativo da presença de ninho na planta. Sintomas como a queda prematura de galhos, amarelecimento e queda abundante de folhas fora de época, rachaduras e ocos em troncos e galhos, florescimento tardio, precoce ou não florescimento (fora de época), brotamento tardio, murcha, seca e morte da árvore sem motivo aparente, podem ser indicativos da presença de cupins.

Identificação profissional

O pesquisador do IB alerta que todos estes sinais são usados para a análise visual. Existem, no entanto, outros meios mais complexos e completos usados por técnicos profissionais governamentais ou particulares.

Uma das ferramentas é o uso de microcâmeras que, após serem introduzidas no interior dos troncos, mostram a presença dos cupins e seus danos. Aparelhos ainda mais sofisticados como o penetrógrafo ou resistógrafo (equipamentos com uma espécie de broca muito fina e sensível) conseguem dizer como está o tronco em relação a sua resistência.

“Há ainda os aparelhos chamados tomógrafos de árvores, onde é possível formar imagens na tela de computadores e “enxergar” internamente o tronco da planta e ver o seu estado quanto a presença de cavidades e áreas comprometidas”, afirma.

Em épocas mais quentes e chuvosas, os cupins promovem um espetáculo da natureza.

Apesar dos transtornos, os cupins promovem um grande espetáculo da natureza nos períodos mais quentes e chuvosos, como na Primavera e Verão. São as chamadas revoadas, em que os machos e fêmeas alados (os futuros reis e rainhas), popularmente conhecidos por siriris ou aleluias, voam para achar seus pares, procurar por um novo local, acasalar e fundar novas colônias.
“Eles saem de seus ninhos geralmente em dias de maior umidade e ao entardecer, voando aos milhares. Nesta hora, muitos animais como aves, lagartos, sapos e outros bichos, realizam verdadeiros banquetes, comendo os cupins e diminuindo significativamente a possibilidade de formação de novos casais e futuros ninhos”, explica o pesquisador.

Fonte: Assessoria de Comunicação

Globo Rural destaca variedade de pássaros que vivem no Instituto Butantan

O Globo Repórter de domingo recuperou uma reportagem de 2019, feita por José Hamilton Ribeiro, sobre a incrível variedade de pássaros que vivem nas áreas verdes do Instituto Butantan. São cerca de 160 espécies. A reportagem está disponível a partir dos 35m05s de vídeo.

Instituto de Pesca desenvolve método mais barato para criação de lambari

Pesquisa desenvolvida pelo Instituto de Pesca (IP-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), utiliza materiais alternativos de baixo custo para construção de tanques de recirculação voltados à criação de lambari da Mata Atlântica. O peixe, da espécie Deuterodon iguape, é usado como isca-viva na pesca esportiva do robalo e seu cultivo reduz a captura predatória de outros organismos do ambiente para o mesmo fim, em especial o camarão-branco (Litopenaeus schmitti).

“Na pescaria do robalo, que é um dos peixes mais valorizados pela pesca recreativa, é muito utilizado o camarão vivo e, em virtude da sobrepesca e do desrespeito ao ciclo de vida do animal, a captura dessa espécie nos estuários é considerada atualmente uma atividade predatória”, afirma Marcelo Barbosa Henriques, pesquisador do IP. Há um bom tempo, Henriques e sua equipe vêm buscando introduzir o lambari como alternativa de isca-viva ao crustáceo para a pesca esportiva no litoral sul paulista, justamente por se tratar de uma espécie que pode ser cultivada. Para isso, num trabalho inicial foi feita a comparação da eficiência de pesca do camarão e do lambari. “Nesse primeiro projeto, chegamos à conclusão de que o lambari, cultivado nos chamados tanques de recirculação, é mais barato que o camarão e também uma isca mais eficiente para pesca de robalo em rios, por se mostrar mais atrativo nesse tipo de ambiente”, relata. Essa pesquisa foi publicada em um dos mais importantes periódicos internacionais que tratam do assunto, Fisheries Management and Ecology.

Além de dar um fôlego maior à população de camarões no ambiente, o cultivo de lambari passou a ser defendido pelo especialista como uma possibilidade de renda interessante para produtores da região. Uma vantagem desse sistema, explica o pesquisador do IP, é que, para isca-viva, o criador vende o peixe por unidade, não por quilo, o que favorece o estabelecimento na atividade dos pequenos aquicultores, principalmente no sistema alternativo de baixo custo desenvolvido. “Se o produtor for vender lambari por quilo, teria que trabalhar com viveiros grandes, escavados, onde são colocados centenas de milhares de lambaris. Vendendo por unidade, o pequeno produtor pode trabalhar com tanques de recirculação de 8 a 10 mil litros, com cerca de 4 mil peixes por tanque”, pormenoriza.

Inovação a custo baixo

Conforme conta o pesquisador, tradicionalmente a piscicultura brasileira é feita no sistema semi-intensivo de viveiro escavado, onde se cava um viveiro na terra com entrada e saída de água para renovação ininterrupta. “Em virtude do aumento da preocupação com a escassez hídrica, no entanto, a aquicultura mundial está mudando em direção a sistemas de recirculação, onde há troca zero de água”, pontua o especialista. Segundo afirma, esse sistema também evita a entrada de patógenos e substâncias químicas, como defensivos, que podem estar presentes na água captada em rios, por exemplo. “Nesse caso, por não haver renovação, é necessário um controle maior dos parâmetros de água, e também um excelente filtro biológico para processar os micro-organismos presentes e evitar que a água se torne tóxica para os peixes”, pondera Henriques.

Com o objetivo de tornar a atividade viável para produtores e comunidades de baixa renda, Henriques e sua equipe aperfeiçoaram métodos de criação de peixes já existentes. “No nosso sistema, especificamente, adaptamos uma tecnologia desenvolvida pela Embrapa, originalmente para cultivo de tilápia, e aplicamos ao lambari”, diz o especialista. O pesquisador do IP elaborou um comparativo entre o sistema convencional de recirculação (com tanques e equipamentos de escala industrial) e seu sistema alternativo, de baixo custo, construído com materiais como papelão, lona plástica, madeira, bombinhas de aquário, redes de pesca usadas, baldes e tambores de plástico. “Nosso intuito era mostrar que, numa densidade não muito elevada, a atividade é vantajosa para gerar renda para o pequeno produtor, que precisa ter um domínio total do processo para não haver mortalidade”, detalha.

Comparando crescimento, ganho de peso e taxa de sobrevivência dos lambaris, os dois sistemas (tradicional e alternativo) tiveram resultados similares. “No nosso sistema, tivemos uma taxa de sobrevivência de 97%”, celebra o pesquisador. “Concluímos que o alternativo é uma opção viável e barata, sendo adequado para comunidades pesqueiras e pequenos produtores de baixa renda”, complementa.

Além dos benefícios ambientais, o projeto proposto por Henriques vem trazendo retorno econômico para a região. “Apostando neste tipo de cultivo do lambari, movimentamos toda uma cadeia produtiva (produtores, pequenos fornecedores de insumos, marinas, compradores das iscas etc), fortalecendo a economia local”, defende.

O pesquisador menciona que o sistema vem sendo testado em algumas cidades do litoral sul de São Paulo, com boa aceitação por parte do pequeno produtor. “Um dos aquicultores, de Itanhaém, conseguiu ampliar o número de tanques e passou até mesmo a diversificar a produção, cultivando verduras com a água do sistema dos peixes (técnica denominada aquaponia)”, anima-se Henriques. “O produtor, inclusive, sugeriu melhorias, como a colocação de coberturas sobre os tanques, para minimizar a incidência direta dos raios solares, o que pode ocasionar mortandade dos peixes em regiões muito quentes”, finaliza.

Fonte: Assessoria de Comunicação

APqC conclama à Alesp que aprove o PDL 22/20 e anule descontos adicionais em aposentadorias e pensões de servidores públicos

A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) vem se somar aos servidores públicos no apoio ao PDL 22/20, de autoria do deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL), que está em trâmite na Assembleia Legislativa (Alesp). O projeto, que está apto a ser votado em regime de urgência, anula imediatamente os efeitos do decreto nº 65.021/20, do Governo de São Paulo, que estabelece descontos adicionais nas aposentadorias e pensões dos servidores estaduais.

Tais descontos estão em vigor desde outubro de 2020 e impactam na contribuição previdenciária de servidores aposentados e pensionistas que ganham a partir de um salário mínimo (R$ 1.045,00). Antes, só tinham a incidência de alíquota os benefícios que ultrapassavam o teto do INSS (R$ 6.101,06), sendo os demais isentos. O dispositivo, que faz parte do pacote da reforma da previdência estadual, aprovada pela Alesp no ano passado, passou a descontar 12% de quem recebe entre R$ 1.045,00 e R$ 3.000,00 e 14% sobre vencimentos que vão de R$ 3.000,01 e R$ 6.101,06. Para quem ganha acima do teto do RGPS (R$ 6.433,67), o desconto é de 16%.

A justificativa do Governo de São Paulo para alterar as regras da contribuição previdenciária é que se fazia necessário, em meio a um contexto de crise econômica, “frear o crescimento da despesa com pagamento de benefícios no Estado”. Porém, com a redução da receita líquida nos proventos e aposentadorias, a economia prevista de cerca de R$ 31 bilhões no prazo de dez anos, sairá do bolso dos servidores.

Antes de ser eleito, o governador João Doria garantiu aos servidores públicos que não atacaria a previdência estadual. O descumprimento da promessa de campanha faz com que os descontos previstos no decreto nº 65.021/20 se assemelhem a “confiscos”. A APqC entende, portanto, que os deputados e deputadas da Alesp, que aprovaram a reforma previdenciária, têm uma dívida para com os servidores públicos e precisam honrá-la aprovando o PDL 22/20.

O projeto de lei do deputado Giannazi já foi aprovado no congresso de comissões e só não foi à votação em plenário porque o Governo de São Paulo apresentou uma emenda de última hora, travando temporariamente o debate em torno da proposta. A APqC conclama aos nobres parlamentares que coloquem o PDL 22/20 em votação o mais rápido possível e que o aprovem, dando uma resposta democrática à esta demanda do funcionalismo público, em especial dos que já se aposentaram após tanto contribuirem à sociedade por meio de seu trabalho. Nossa Associação irá atuar junto à Alesp para que a Casa possa reparar a injustiça cometida contra estes servidores.


João Paulo Feijão Teixeira é presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC)

IAC usa sensoriamento remoto para avaliar estado hídrico da cana

Considerando as amplas extensões de áreas de cana-de-açúcar, qual a estratégia mais adequada para avaliar se as plantas estão em estresse hídrico ou se dispõem de água suficiente para alcançar a produtividade de três dígitos? Para contribuir nesse manejo que reflete na produtividade desta cadeia econômica com importância para produção de açúcar, etanol e bioenergia, o Instituto Agronômico (IAC) adotou o sensoriamento remoto, realizado por VANTs (Veículos Aéreos Não Tripulados) equipados com câmeras termográfica e multiespectral, em voos distintos. O IAC, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, iniciou um estudo, no segundo semestre de 2020, com o objetivo de avaliar alternativas para monitoramento do estado hídrico da cana-de-açúcar, por meio de dados gerados por essas câmeras e avaliação do estado hídrico das plantas. Os resultados mostraram que a temperatura foi menor na área irrigada, variando na faixa de 22°C até 37°C, e na área não irrigada as temperaturas foram superiores a 37°C.

Os experimentos foram feitos em Ribeirão Preto, interior paulista. Nos ensaios foi adotada a cultivar IACSP95-5094. O estudo recebeu o Prêmio de melhor artigo no Inovagri Meeting Virtual, XXIX Congresso Nacional de Irrigação e Drenagem e IV Simpósio Brasileiro de Salinidade, em dezembro de 2020.

Por meio das imagens, os cientistas interpretam o estado hídrico da planta, isto é, se ela está sob déficit, qual a intensidade desse estresse ou, ainda, se mantém boa condição de disponibilidade de água. “Para culturas com grandes áreas, é muito importante analisar e interpretar, através de imagens, se há estresse hídrico, qual a intensidade deste e o período de tempo no qual a planta está nesta condição”, avalia a pesquisadora do IAC, Regina Célia de Matos Pires.

O estudo conduzido pelo IAC é diferenciado porque há poucas pesquisas associando os resultados obtidos por imagens ao estado hídrico da planta com vistas ao entendimento da ocorrência ou não de déficit hídrico, ao planejamento da irrigação e ao seu manejo. O sensoriamento remoto traz benefícios para o setor sucroenergético com estudos de estimativa de biomassa, crescimento e vigor de plantas e levantamento de falhas, neste caso para saber, por exemplo, qual o número de mudas necessárias para reduzir as falhas no estande de plantas.

Segundo a pesquisadora, as avaliações permitiram registrar diferenças entre os tratamentos irrigados quando comparados ao manejo sem irrigação nas duas câmeras utilizadas. “As imagens termográficas têm potencial para avaliação do estado hídrico de plantas de cana-de-açúcar de modo rápido, não destrutivo e eficiente”, considera a pesquisadora do IAC, da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA).

O fornecimento de água às plantas contribui para elevar a produtividade e a qualidade da produção. Para obter tais resultados, é fundamental conhecer os diferentes manejos de irrigação que podem ser aplicados em áreas extensas, visando ao uso eficiente da água e considerando o estado hídrico e o desenvolvimento da cultura.

A equipe do IAC trabalhou em dois grupos de plantas: um com irrigação e outro sem. Na área irrigada, a água foi aplicada por gotejamento superficial, com uma linha de tubogotejadores, por linha de plantio. “O manejo da água foi realizado com aplicação de 50% da evapotranspiração da cultura, caracterizada como uma irrigação deficitária”, comenta Regina. Neste tipo de irrigação, é disponibilizado um volume de água inferior à demanda da planta, naquele momento.

Para obtenção das imagens, a equipe utilizou o VANT de asa fixa da marca SenseFly, modelo eBee X. Nele foram acopladas, em voos distintos, as câmeras termográfica e multiespectral. As imagens termais foram feitas às 12h e às 15h, com a câmera térmica a 30 metros de altura. As imagens multiespectrais foram registradas em apenas um horário no período da tarde, com a câmera a 45 metros de altura. Os voos foram realizados nos meses de agosto e outubro de 2020. Os dados de clima, também considerados no estudo, foram obtidos em estação meteorológica automática do IAC, instalada em local próximo à área experimental.

De acordo com a pesquisadora, o planejamento e a execução do plano de voo foram feitos com o software eMotion, que permite controlar remotamente a aeronave durante a captação das imagens aéreas. O voo foi acompanhado em solo, mantendo sempre o contato visual com o VANT.

Feitas as imagens, elas foram mosaicadas, isto é, juntadas em duas ou mais, e ortorretificadas, processo de correções das distorções internas (do sistema) e externas (da paisagem), pelo software Pix4Dmapper. “A partir dos arquivos gerados na etapa de processamento dos dados, obtivemos os mapas com imagem espectral da área experimental, apresentando o índice de vegetação da diferença normalizada, também foi obtido o mapa com as temperaturas registradas pelo processamento da imagem termográfica”, explica.

As tecnologias de sensoriamento remoto aplicadas na agricultura têm permitido o monitoramento e o gerenciamento da variabilidade espacial e temporal das lavouras em tempo real. No Brasil, a área cultivada de cana-de-açúcar é de cerca de 10 milhões de hectares. A produtividade média é de 76,1 toneladas, por hectare, e os esforços são direcionados aos três dígitos, isto é, ao menos 100 toneladas, por hectare. O estado de São Paulo é responsável por 51% da produção brasileira. Com áreas tão extensas e números tão representativos para a economia, é fundamental recorrer a tecnologias que permitam análises abrangentes.

Prêmio de melhor artigo

Intitulado “Uso de Imagens Multiespectrais e Termográficas para monitoramento das condições hídricas da cana-de-açúcar”, o artigo foi premiado como melhor artigo apresentado no Inovagri Meeting Virtual, XXIX Congresso Nacional de Irrigação e Drenagem e IV Simpósio Brasileiro de Salinidade, em dezembro de 2020. O artigo foi escrito por: Jane Maria de Carvalho Silveira, Bernardo Moreira Cândido, André Luiz Barros de Oliveira Silva, Gláucia Cristina Pavão, Mauro Alexandre Xavier, Regina Célia de Matos Pires.

Como seria a análise de estresse hídrico sem VANT?

A pesquisadora explica que os recursos adotados nesse estudo auxiliam na obtenção de informações em grandes áreas, sem a necessidade de ter equipamentos instalados para obter informações em tempo real ou de ter operador com equipamentos específicos in loco para avaliar. Por exemplo: o estado hídrico da cana-de-açúcar pode ser mensurado por um equipamento que meça as trocas gasosas da planta ou que verifique a temperatura foliar in loco ou ainda que avalie o potencial de água na folha, dentre outros.

“Portanto, há diversas formas para avaliar o estado hídrico da planta, mas para isso ou você tem que ir com determinado equipamento na área e faz algumas amostragens; ou opção é instalar equipamento na área para monitoramento em tempo real”, comenta.

A temperatura foliar pode ser utilizada como indicador de deficiência hídrica, principalmente para fins de manejo de áreas irrigadas e para monitorar o déficit hídrico. Porém, segundo a cientista, o uso de câmeras que capturam imagens em grandes áreas e o conhecimento para interpretá-las, em termos de estado hídrico dessas plantas, proporcionam amostragem muito maior e mais representativa da área. “Ao invés de ter uma planta ou algumas plantas ou algumas folhas, você tem avaliação em área maior, isso é importante em grandes culturas e contribui para melhorar a representatividade”, resume.

Como a irrigação contribui para elevar a produtividade e a qualidade?

Para crescer e acumular matéria seca, a cana-de-açúcar realiza trocas gasosas, em que perdem água por evaporação e absorvem gás carbônico que será utilizado no processo de fotossíntese o que proporciona o crescimento da planta e o aumento da produção.

Com relação à qualidade da cana, a irrigação é suspensa em determinado período, anterior à colheita. Esse momento varia e depende, além do clima, da disponibilidade de água no solo e da capacidade de armazenamento de água no solo para as plantas. Mas a qualidade é determinada também pelo aporte nutricional e pelo clima da região. “Nas áreas irrigadas, costuma-se suspender a irrigação um tempo antes da colheita para favorecer a concentração de sacarose”, explica. Porém, não é só reduzir a disponibilidade de água que vai favorecer a maturação, são vários outros fatores, mas a suspensão da irrigação é uma das estratégias adotadas, segundo a pesquisadora.

“O aumento da biomassa depende de todo o manejo adotado, só a água não fará milagre”, destaca Regina. Ela recomenda, além da irrigação, a adoção de cultivar responsiva à água e a nutrição adequada para obter elevadas produtividades.

De acordo com o pesquisador e líder do Programa Cana IAC, Marcos Guimarães de Andrade Landell, dentre as cultivares de cana, há grande variabilidade de resposta à água. “Não é tudo igual. A cultivar pode determinar a viabilidade ou a inviabilidade de um projeto de irrigação e tem que render alta produtividade para valer o investimento na irrigação”, orienta Landell. Ele assegura que as cultivares IAC se destacam pela alta performance em condição irrigada porque o Instituto tem muitas informações obtidas ao longo dos últimos 20 anos de pesquisas e, transferidas ao setor, dão alto retorno. A cultivar IAC911099, por exemplo, apresenta resposta muito boa com irrigação deficitária, em Goiás, na área da usina Jalles Machado.

“A IACSP-955000 vai bem com irrigação plena, quando é oferecida mais água, atendendo mais à demanda dela, torna-se muito competitiva. É o que temos observado no estado de São Paulo. Ela é uma grande opção para essa condição”, diz Landell. A cultivar IACSP-955094 atende muito bem aos dois tipos de irrigação: deficitária e plena, assim como a IAC911099. Landell comenta que há novos materiais que estão chegando com performances muito boas também em condição irrigada.

O IAC avalia a resposta de cultivares a irrigações desde o início do ano 2000, em trabalhos com a usina Jalles Machado, onde instalava ensaios em condição de irrigação deficitária, porque a disponibilidade de água era pequena naquela região. “Daí começamos a selecionar materiais e, em 2005, fomos conhecer Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, eles queriam saber se a cana era viável naquela região e nós instalamos campos experimentais e depois iniciamos projetos de seleção em condições de irrigação” conta Landell. Atualmente, o Instituto Agronômico tem muitos materiais com boa resposta à irrigação.

O clima do ano e do ciclo da cultura também é determinante para o aumento da biomassa. “Em anos com maior déficit hídrico, a resposta à irrigação (comparado à condição de sequeiro) vai ser muito maior que em um ano que tenha déficits por menor tempo ou com menor intensidade”, atesta Regina. Por isso, esse percentual de aumento depende de todo o contexto, incluindo a região ambiental a disponibilidade hídrica e a condição de solo.

Tipos de irrigação

As diferentes estratégias adotadas para irrigação podem ser: irrigação eventual, irrigação de salvamento, deficitária e complementar.

A irrigação eventual, que pode ser adotada uma ou mais vezes, é aquela feita em momentos específicos e pode auxiliar a manter a produtividade ou mesmo mitigar um estresse hídrico muito severo. Ela é usada quando o canavial passa por um período muito grande de seca intensa, a propriedade tem água disponível e equipamento adequado.

Outra estratégia é a irrigação de salvamento, feita normalmente depois do corte da cana, para favorecer a brotação. “No período de seca intensa, se não favorecer a brotação, pode haver quebra de produtividade grande no ano seguinte, nesse talhão, por isso é chamada de salvamento”, explica Regina Célia de Matos Pires.

De acordo com a pesquisadora, a irrigação deficitária caracteriza-se pela disponibilização de volume de água inferior à demanda da planta no momento. A irrigação complementar normalmente ocorre onde a precipitação anual total é superior a 800 mm, ela complementa a reposição da chuva. O cálculo do volume a ser fornecido é feito por meio de monitoramento do balanço hídrico ou da disponibilidade de água no solo. “Nesta irrigação, aproveitamos as entradas das chuvas como saldo positivo no balanço hídrico e há reposição do que falta para completar 100% à demanda da cultura ou ainda uma porcentagem desta. A irrigação complementar às chuvas também pode ser deficitária”, explica.

A Agência Nacional das Águas (ANA) define a irrigação plena como o fornecimento de 100% da demanda da cultura e isso reflete em aplicações de irrigações de 400 mm a 1000mm, por ano. Há também a indicação de irrigação plena em regiões onde chove menos de 800 mm, por ano.

Fonte: Assessoria de Comunicação / IAC