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Posts da categoria ‘Uncategorized’

Pesquisadores da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” assinam carta de repúdio ao PL 529 e de solidariedade ao Instituto Florestal

Foto: Bruno Fernandes

Nós, pesquisadoras e pesquisadores do Laboratório de Educação e Política Ambiental (Oca), situado na Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, e pertencente à Universidade de São Paulo manifestamos nosso total repúdio ao Projeto de Lei (PL) nº 529/20 apresentando pelo poder executivo do estado à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP). Acreditamos que medidas de redução de gastos em tempos como este da pandemia da COVID-19 não deve envolver jamais o corte no rendimento de trabalhadoras e trabalhadores (bem como seus familiares e dependentes), e nem ainda o desmonte de instituições fundamentais no funcionamento da gestão pública estadual.

Como atuantes na pesquisa do campo socioambiental, nos solidarizamos com o Instituto Florestal e demais instituições do campo, que estão sendo severamente prejudicados pelas diretrizes que este projeto de lei propõe. O Instituto Florestal é uma instituição de mais de 100 anos que tem um papel fundamental na conservação, na pesquisa, na produção, educação ambiental, uso público e no desenvolvimento florestal do Estado de São Paulo, influenciando ações e políticas em todo o país. Administra atualmente 47 áreas protegidas no Estado de São Paulo.

Nos últimos anos a Oca tem desenvolvido ensino, pesquisa e extensão conjuntamente com a unidade do Instituto em Piracicaba, situada na Estação Experimental de Tupi, com ações e pesquisas nos campos da educação ambiental, políticas públicas, agroecologia e tecnologias sociais. Estas iniciativas construídas a muitas mãos atingem toda a comunidade de Tupi, bem como grande parte do município de Piracicaba, e só são possíveis porque existem ali um espaço natural educador e profissionais do mais alto gabarito. Neste sentido as proposições ilógicas do projeto de lei colocam em risco real a continuidade de ações comunitárias, pesquisas de pós-graduação e projetos de extensão universitária, que atualmente já operam com o total desprestígio por parte do estado brasileiro, a partir do não financiamento da pesquisa científica e da universidade pública como um todo.

É sempre importante relembrar o ano de 2017, em que o atual ministro do meio ambiente Ricardo Salles (secretário de meio ambiente do estado de São Paulo na época), propôs de forma autoritária (como é de seu costume político) a venda de 34 áreas de florestas e de produção de madeira no estado de São Paulo (incluindo a estação experimental em Tupi). A mobilização de todos os setores do município de Piracicaba venceu o autoritarismo, e atualmente a área é gerida de forma compartilhada entre o Instituto Florestal, Prefeitura Municipal de Piracicaba, Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, e instituições da sociedade civil presentes no Distrito de Tupi. Questionamos neste sentido: Não estaríamos caminhando novamente para este lado obscurantista com o desmonte do sistema ambiental paulista? Qual o sentido desta medida em tempos de pandemia, especialmente sendo esta causada por uma zoonose? Se este governo estadual defende a ciência, como costuma mencionar cotidianamente em suas coletivas públicas, é fundamental rever o Projeto de Lei (PL) 529/20, e seus impactos na manutenção da vida e da natureza no estado. No mais, estaremos aqui novamente mobilizadas (os), e demonstrando ao estado que política pública é instrumento de todas as pessoas, não somente aqueles que atualmente estão em mandato.

Finalmente estamos em solidariedade com as trabalhadoras e trabalhadores prejudicados pelo projeto e nos colocamos a disposição para oque for possível contribuir neste movimento.

Apoie este movimento! Segue formulário para para quem deseja manifestar publicamente seu apoio ao Manifesto Contra a Extinção do Instituto Florestal! Cadastre-se e compartilhe clicando aqui.

Assine e compartilhe também o abaixo-assinado contra a extinção do Instituto Florestal clicando aqui.

Fonte: Laboratório de Educação e Política Ambiental (OCA)

Nota de repúdio à extinção da Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN)

Os profissionais de pesquisa científica da SUCEN, vêm a público manifestar seu repúdio e indignação com o Projeto de Lei (PL) n° 529/20 enviado à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) em 13/08, que inclui a SUCEN no rol de instituições paulistas que devem ser extintas.

A inclusão da SUCEN, órgão que faz parte do parque de instituições voltadas à ciência e tecnologia no estado de São Paulo, neste grupo de instituições passíveis de extinção, é inadmissível em tempos em que a ciência é considerada a base das ações em saúde pública, como reiterado em discursos dos dirigentes do estado de São Paulo, ao justificar as ações de contenção da COVID-19.

A pesquisa científica na SUCEN tem um longo histórico de desenvolvimento técnico-científico que resultou em ações de saúde benéficas para a populações do Estado de São Paulo, que são 1- fundamentais aos municípios que recebem assessoria para o controle de vetores; 2- essenciais às instituições públicas e privadas, que em conjunto com esta instituição desenvolvem projetos científicos que dependem do conhecimento de cada recanto do estado de São Paulo onde proliferam mosquitos, triatomíneos, carrapatos e caramujos, todos envolvidos na transmissão de doenças que acometem vidas; 3- fundamentais à população paulista.

É inaceitável que após tantos anos de dedicação ao trabalho cotidiano de mapeamento, conhecimento e manejo ambiental das populações de mosquitos, carrapatos, triatomíneos e caramujos, que impactam a saúde e qualidade de vida dos cidadãos paulistas, tenhamos como surpresa um projeto de lei que propõe a extinção da SUCEN, baseado exclusivamente em motivos econômicos e financeiros; uma espécie de barganha absurda na qual todos perdem: estado, cidadãos e, principalmente a ciência. Uma história exitosa no desenvolvimento de tecnologias e práticas de controle de vetores de doenças baseadas na pesquisa científica e no debate e intersecção com a comunidade de vigilância epidemiológica, merece aperfeiçoamento, inovação, mas nunca a extinção sumária, sem o amplo debate técnico para dar continuidade aos trabalhos que desenvolvemos.

Com a extinção da SUCEN, dengue, febre amarela, leishmaniose, malária, esquistossomose, doença de Chagas, febre amarela, Zika, Chikungunya e outras novas doenças que ainda estão por vir, deixam de ter um nicho de pesquisa único no estado de São Paulo, com infraestrutura laboratorial e de campo especificamente construídas para dar suporte intelectual e técnico ao desenvolvimento de estratégias que visam a preservação de vidas.

Desta forma, nós, profissionais da pesquisa científica da SUCEN, vimos por meio desta nota de repúdio ao Projeto de Lei (PL) n° 529/20, compartilhar com V.Sas. este grave ataque às instituições de pesquisa do estado de São Paulo, que dentre tantos outros danos, resultará na extinção da SUCEN, com consequências ao sistema de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo mas, principalmente, à saúde da população paulista.

Conheça mais sobre nossa história clicando aqui.

Reformas: a difícil e necessária decisão

Roberto Rodrigues. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

artigo

O Governo Federal enviou uma proposta de reforma do Estado ao Congresso Nacional. O que se busca é o equilíbrio fiscal (a máquina pública custa muito caro e toma parcela excessiva do orçamento), a melhora da eficiência dos serviços e a extinção de privilégios públicos e privados que foram se acumulando ao longo da História em função de lobbies poderosos e de fragilidade ou subserviência de uns poucos parlamentares ou ocupantes do Executivo.
Ao lado da Reforma Tributária, esta é uma necessidade basilar para resgatar a confiança de investidores e a própria capacidade do estado investir. Não há o que discutir: precisa ser feito ou o país vai parar de vez. E não se trata de problema federal apenas: as unidades da federação e os municípios padecem do mesmo problema que tem que ser enfrentado com coragem e determinação.
O ônus político dessa reforma é tremendo: as pressões pela manutenção e até aumento de privilégios são enormes e se traduzem em ataques a executivos e legislativos cujas consequências eleitorais podem ser fatais. Em outras palavras, aqueles que fizerem o bem para o país cortando os excessos podem ser execrados em campanhas ardilosas e nunca mais serem eleitos. E então se acomodam por causa de suas posições pessoais e cedem a interesses nada republicanos. Essa é a dificuldade de avançar.
Por outro lado, e’ um erro grosseiro generalizar a opinião de que os funcionários públicos são todos ineficientes ou indolentes. Ocupei cargos públicos no Governo de São Paulo e no Governo Federal e encontrei muitos funcionários extraordinariamente bem preparados, dedicados, estudiosos, patriotas e competentes, responsáveis mesmo pelos avanços que acontecem a partir de políticas públicas. Na realidade, são eles que fazem as coisas acontecer, porque conhecem o funcionamento da máquina e sabem como redigir e implementar medidas de interesse nacional. E seriam ótimos assessores ou executivos no setor privado também, estão capacitados para qualquer função que exija conhecimento técnico e operacional.
Portanto, a reforma deve separar o joio do trigo. Deve eliminar os privilégios nos três Poderes e não pessoas que são um privilégio para o setor público. E fundamental será premiar a meritocracia como instrumento de remuneração e promoção.
Dito isso, há que se compreender a situação atual, sob o impacto da trágica pandemia do Covid-19. Este tsunami sanitário produziu as catástrofes conhecidas na saúde humana e na economia de todos os países do mundo. Oxalá seja mais rapidamente conhecido de modo a se conseguir um combate eficiente a ele. Mas é possível que o mundo nunca mais seja o mesmo em diversos aspectos no que diz respeito ao comportamento e as formas de trabalho humano e ao funcionamento das instituições.
E aqui ressalta o fato de que também a economia das organizações públicas está sendo duramente abalada. Prefeitos municipais, governadores, o presidente da República e seus secretários e ministros assistem a quedas brutais de arrecadação, seus orçamentos ficaram insuficientes para cumprir seus compromissos, de modo que precisam cortar fundo em sua própria carne para se salvarem da inadimplência.
Com isso resulta um acúmulo de dificuldades: a reforma tinha que ser feita antes da pandemia de qualquer jeito, mas não foi; e agora os cortes se tornaram mais urgentes e muito mais profundos.
É aí que mora o perigo. Cortar o que e quanto? Sacrificar quais atividades e funções?
Como compatibilizar as indispensáveis eliminações de privilégios e enxugamento da máquina com a manutenção dos serviços essenciais à população e ao país?
Nunca foi necessária tanta competência para fazer o que é certo e o que é justo. Porque não se trata de um arranjo emergencial só por causa do vírus. Não se pode confundir a urgência imposta pela pandemia com a questão estrutural do equilíbrio fiscal permanente.
Alguns temas são óbvios. Não pode cortar na saúde (ao contrário, precisa mais recurso), na educação e na segurança. Mas também não se deve cortar na ciência e na tecnologia (em especial deve-se cuidar da remuneração dos cientistas para que possam produzir em paz) porque isso seria matar o futuro competitivo da nação.
E também é importante perscrutar as tendências que se desenham no horizonte para não sacrificar organismos e/ou instituições que são a garantia de atendimento dos anseios da humanidade.
E está claro que dois temas principais se apresentam nesse caminho: segurança alimentar (com qualidade do alimento) e sustentabilidade (com ênfase para a preservação dos recursos naturais). A compatibilização dessas duas macro demandas é o desafio dos executivos em todos os níveis. E ainda mais: não só compatibilizar, mas fortalecer as instituições que cuidam desses aspectos, sobretudo na ciência.
Tal desafio está em todos os níveis governamentais. Sabemos que o Brasil tem as condições para ser o campeão mundial da segurança alimentar e da sustentabilidade.
E o Estado de São Paulo tem uma grande contribuição já dada ao país e que pode ser ainda mais efetiva, com a meritocracia funcionando nas nossas Universidades e nos Institutos que geram as inovações para a produção sustentável, como o Instituto Agronômico de Campinas, o Instituto Biológico, o Florestal, o de Zootecnia, o Butantã, o Instituto de Pesca e outros cujos talentos e conhecimento acumulado devem ser preservados e estimulados para o bem da sociedade brasileira. Outros setores, como a Assistência Técnica e Extensão Rural precisam ser modernizados para atendimento prioritário ao pequeno produtor. O perigo é extinguir uma instituição em função da pandemia porque, quando esta terminar, o serviço importante estará também eliminado em prejuízo do conjunto.
Não será fácil tomar as decisões corretas. Devemos confiar em nossos executivos e parlamentares e torcer para que sejam iluminados em suas decisões.

  • Roberto Rodrigues – Coordena o Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas e foi ministro da Agricultura (2003 a 2006)

Manifesto Sobre o projeto de lei n° 529/2020: Em Defesa das Geociências, do Instituto Geológico, da Vida e da Economia

O Instituto Geológico (IG) é originário da “Comissão Geográphica e Geológica da Província de São Paulo – CGG”, criada em 1886 com o objetivo de planejar e executar estudos e pesquisas para subsidiar a ocupação do território paulista. Atualmente vinculado à Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado (SIMA), é uma Instituição de Pesquisa Científica, de caráter consultivo e assessoramento técnico, com um corpo funcional altamente qualificado, que como tal desenvolve estudos e projetos em atendimento às mais diversas demandas da sociedade, e presta serviços especializados em Geociências a órgãos do Poder Executivo Estadual (CETESB, CFB – Coordenadoria de Fiscalização e Biodiversidade, CPLA – Coordenadoria de Planejamento e Licenciamento Ambiental, Fundação Florestal – Planos de Manejo para Unidades de Conservação, Casa Militar – Coordenadoria de Proteção e Defesa Civil); Ministério Público; Poder Judiciário; Prefeituras Municipais; Poder Legislativo (Câmara de Vereadores, ALESP).

A área de Geociências é fundamental para o desenvolvimento socioeconômico do Estado de São Paulo, e o Instituto Geológico atende políticas setoriais estratégicas tais como: planejamento, transportes, habitação, defesa civil, prevenção de riscos e gestão de desastres naturais, recursos hídricos, energia e mineração. Seja isoladamente, seja em articulação com outros órgãos e entidades, seus trabalhos tem sido veiculados com frequência pela grande imprensa, reforçando a relevância e o papel fundamental que exerce na sociedade.

Todavia, não obstante à sua reconhecida atuação nas questões citadas acima, incluindo a entrega, em 14/08, dos resultados do Mapeamento e Avaliação de Áreas de Risco aos prefeitos de 11 municípios da Região Metropolitana de São Paulo (outros 27 municípios serão contemplados até o final de Outubro de 2020, mormente às adversidades impostas pela pandemia do Covid-19), o Instituto Geológico foi surpreendido com Projeto de Lei 529/2020, de iniciativa do Sr. Governador, que entre outras medidas, em seu Artigo 66 propõe a sua fusão com outras entidades de pesquisa da SIMA (o Instituto de Botânica, e parte do Instituto Florestal que será extinto) cujas atribuições, áreas do conhecimento e atuação, são bastante distintas do Instituto Geológico.

Também em seu Artigo 17, de maneira intempestiva e controversa, e similarmente ao que pretende fazer em relação às Universidades (USP, Unesp e Unicamp), e à própria Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp), propõe o Sr. Governador, uma profunda alteração no manuseio do Fundo Especial de Despesas (receitas próprias), apropriando-se por tempo indefinido, de todo e qualquer superávit do referido fundo (que já responde por mais da metade de todas as despesas de custeio do Instituto, e por 100% dos investimentos).

Tal medida extermina o futuro das instituições, acabando com a possibilidade de criação de reserva financeira ou poupança, para investimentos na própria estrutura ou para enfrentamento de tempos difíceis como estes que estamos todos vivenciando. Além disso, vai na direção contrária aos atuais esforços, e política de incentivo do próprio governo, de parcerias com o Setor Produtivo voltados à inovação tecnológica, e sobremaneira inibe todo e qualquer aumento de produtividade.

Cabe ressaltar que, em nenhum momento houve consulta ou discussão, sobre a eventual fusão dos referidos Institutos num órgão único de Biodiversidade, com a comunidade científica, e nem mesmo com os seus dirigentes. Tampouco foi apresentado qualquer estudo sobre a viabilidade operacional e econômica da fusão. Estamos convictos de que a unificação dos institutos, e a extinção de um deles, não reduzirá o custeio, pois os quadros de recursos humanos tanto dos setores técnicos quanto administrativos já são bastante enxutos, todos estatutários concursados, e que em sua vasta maioria (devido à ausência de novos concursos e renovação dos quadros funcionais) já ocupam seus cargos há bastante tempo, não sendo possível a redução de seus salários.

Por outro lado, haverá perdas significativas para a sociedade no quesito do desenvolvimento das pesquisas e sua aplicação, na prestação de serviços especializados e no atendimento às emergências em decorrência de fortes chuvas, que tão frequentemente causam enxurradas, inundações, deslizamentos de terra, queda de barreiras em estradas.

Um setor estratégico de Geociências não deve ser simplesmente diluído em outras áreas de conhecimento, correndo o risco de perder sua função e aplicabilidade. Por isso, vimos respeitosamente chamar sua atenção para o fato de que, uma área de atuação em Geologia bem definida e com atribuições de pesquisa e de serviços proporcionam o planejamento e a execução de políticas de Estado e de Governo, de uma maneira sustentável e segura. Dessa forma, consideramos equivocada a proposição de fundir o Instituto Geológico em um órgão de Biodiversidade, o que limitaria e diminuiria a expressão e a aplicabilidade da Geologia em prol do desenvolvimento socioeconômico do Estado e da segurança da população diante de desastres naturais, crises hídricas, etc.

Por esta razão pedimos o seu apoio e sua manifestação individual ou de sua empresa, organização, entidade, seja ela pública ou privada.

Não à fusão do Instituto Geológico e do Instituto de Botânica.

Não à apropriação de receitas próprias dos Fundos Especiais de Despesas pelo Governo.

Não à extinção do Instituto Florestal.

FEBRAGEO promove live que debate hoje os impactos do PL 529 à pesquisa científica em São Paulo

Hoje (15/09), às 19h, com a participação do Dr. Paulo Cesar Fernandes da Silva, pesquisador científico do Instituto Geológico da SIMA/São Paulo, a Federação Brasileira de Geólogos promove uma live cujo debate terá como tema o PL 529/20, seus impactos na pesquisa científica e os prejuízos para a sociedade.

Além do pesquisador da SIMA, participam o prof. Dr. José Alexandre de Jesus Perinotto, diretor do Instituto de Geociências e Ciências Exatas – IGCE/Unesp – Câmpus Rio Claro e a Deputada Beth Sahão, Coordenadora da Frente Parlamentar em Defesa das Instituições Públicas de Ensino, Pesquisa e Extensão no Estado de São Paulo.

A APqC convida a todos e todas para conhecer os sérios problemas desse Projeto de Lei para a pesquisa científica e tecnológica do Brasil, assim como, para os Institutos de Pesquisa no Estado. Participe e compartilhe com seus amigos, faça suas perguntas ao vivo para nossos convidados. Haverá emissão de certificado aos participantes.

Para assistir e participar acompanhe a transmissão do vídeo abaixo a partir das 19h.

Instituto de Pesca investe na criação de camarão e auxilia aquicultores

Foto: Marcello Boock – Despesca de policultivo de camarões de água doce e tilápias, realizada na fazenda VALED, no Vale do Paraíba.

A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, por meio do Instituto de Pesca (IP-APTA), realiza na Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento de Pirassununga diversas pesquisas técnico-científicas voltadas a diferentes espécies de organismos aquáticos. Dentre estas, estão aquelas ligadas à carcinicultura (criação comercial de camarões), com destaque para as espécies de água doce, popularmente chamadas de “pitus”. Além dos projetos de pesquisa, os pesquisadores e técnicos da UPD ministram cursos com foco no atendimento ao público em busca de informações sobre o tema, geralmente com o intuito de entrar profissionalmente na atividade.

“Somos frequentemente procurados por produtores rurais interessados em criação de camarões em águas interiores, ou seja, em áreas distantes do litoral. Entretanto, notamos que boa parte dessas pessoas não sabe que a grande maioria das criações no interior do país são realizadas com uma espécie de água doce”, conta Marcello Boock, pesquisador do IP na UPD Pirassununga. A espécie, Macrobrachium rosenbergii, conhecida como camarão-da-Malásia, ou gigante-da-Malásia, é muito difundida mundialmente e corresponde à principal espécie de camarão de água doce (CAD) criada comercialmente no Brasil, segundo o pesquisador. “Por outro lado”, lembra Boock, “há também aqueles que acreditam que todos os camarões criados em águas interiores são exclusivamente espécies de água doce, o que não é verdade, pois atualmente já existe tecnologia para produção de camarões marinhos, em água de baixa salinidade, no interior”.

No IP, a equipe formada, além de Boock, pelos pesquisadores Helcio Marques e Márcia Galvão, em parceria com o pesquisador Sérgio Schalch, do Polo Regional Vale do Paraíba da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), tem atuado em diversas linhas de pesquisa com a carcinicultura de água doce. Entre as mais inovadoras, Boock cita a rizicarcinicultura, que é a criação de camarões de água doce em campos de arroz irrigado por inundação; o cultivo integrado com peixes (policultivos); e a criação em sistemas “pellet free” (sem ração) e em sistema orgânico. “Também desenvolvemos trabalhos com sistemas alternativos de produção de larvas de camarão (larvicultura) e produção de espécies nativas de camarões como isca-viva para pesca esportiva”, acrescenta o especialista.

Boa opção para o pequeno produtor

De acordo com o pesquisador do IP, no Brasil o cultivo do camarão-da-Malásia é uma boa alternativa para o produtor que deseja ingressar na atividade da carcinicultura fora da região litorânea. “Os camarões de água doce geralmente são criados por pequenos e médios produtores, na maioria das vezes não constituindo a sua principal atividade econômica”, comenta Boock. Esses pequenos criadores, segundo ele, normalmente utilizam mão de obra familiar e a atividade complementa a renda da propriedade rural. A produtividade média alcançada, utilizando-se sistema extensivo ou semi-intensivo, é de 1000 a 1500 quilos/hectare a cada ciclo de produção (que dura 6 meses). “Os investimentos e capital de giro nesses sistemas de produção são bem mais baixos quando comparados aos dos sistemas de produção de camarões marinhos”, pontua o especialista. “Além disso, devido à criação em baixa densidade, os camarões de água doce praticamente não apresentam problemas de doenças e os efluentes produzidos na atividade são menos impactantes, podendo ainda serem criados com baixa taxa de renovação de água”, complementa.

O pesquisador do IP comenta que, apesar de ser possível, do ponto de vista técnico, criar camarão marinho em águas interiores, mesmo longe do litoral, o alto custo de investimento inicial e capital de giro lançam dúvidas sobre a viabilidade econômica desse tipo de empreendimento em pequenas propriedades – o que pode significar mais despesas do que lucros para o produtor. “Muitas pessoas estão entrando nesta atividade sem ‘fazer contas’, influenciadas por ‘youtubers’ que só estão preocupados em vender seus cursos ou produtos”, alerta.

Diferenças entre camarões de água doce e marinhos

Boock diz que existem muitas dúvidas a respeito das diferenças entre os camarões marinhos e de água doce comumente cultivadas em águas brasileiras. Conforme elucida, duas espécies perfazem a quase totalidade da produção nacional: o camarão-da-Malásia e o camarão-branco-do-Pacífico (Litopenaeus vannamei). O primeiro é originário do sudeste asiático e passa a maior parte da vida em rios que desaguam no mar. Em cativeiro, é criado em água com salinidade zero. Já o camarão-branco-do-Pacífico, principal espécie de camarão marinho criado no Brasil, é encontrado no oceano que o nomeia e passa todo seu ciclo de vida em regiões com médias a altas salinidades, muito embora possa ser criado em água com baixa salinidade.

Uma diferença importante, segundo o pesquisador, é que os camarões de água doce geralmente são criados em baixas densidades de estocagem (100 mil pós-larvas/ha), principalmente devido ao seu comportamento territorialista e agressivo. Por outro lado, os camarões marinhos, pouco agressivos, podem ser criados em sistemas intensivos a super-intensivos, com densidades de estocagem acima de 200 mil juvenis/ha – característica que, apesar de permitir maior produtividade, pode levar ao aumento de doenças e maior emissão de efluentes.

Por fim, o pesquisador do IP esclarece uma das principais perguntas que recebe: em relação à carne de ambas as espécies, existem diferenças? “Embora a composição da carne de ambos seja muito semelhante em termos nutricionais, a ‘casca’ – o termo correto é exoesqueleto – dos camarões de água doce é mais espessa e, por isso, as formas de preparo de ambos diferem bastante”, explica Boock. O especialista diz que para se preparar e consumir os camarões de água doce é necessário, na maioria das vezes, se retirar a “casca”, enquanto o marinho pode ser preparado e consumido com ela. “Em termos de sabor, ambos são bastante semelhantes, com muitas pessoas se referindo à carne do camarão de água doce como sendo mais ‘suave e delicada’ enquanto a do marinho, como tendo um sabor mais ‘forte e pronunciado’”, detalha o pesquisador. “Embora esses conceitos de sabor sejam muito subjetivos, é certo que as estratégias de comercialização devem levar em conta todos esses fatores, para que o consumidor não se decepcione ao consumir uma espécie achando que está consumindo outra”, finaliza.

Fonte: Instituto de Pesca

Instituto Geológico lança podcast sobre o trabalho de seus pesquisadores

O Instituto Geológico lançou seu próprio podcast e o primeiro programa já foi ao ar no último dia 4 de setembro. Com o título de “Tempo Geológico”, o programa apresentará aos ouvintes assuntos relevantes sobre as pesquisas desenvolvidas pelo instituto, bem como informações sobre serviços prestados e atualidades da ciência na área da geologia.

O primeiro programa contou com a participação de Luciana Martin Rodrigues Ferreira, diretora do Instituto Geológico, que contextualizou historicamente a instituição e apresentou um panorama atual do órgão, que é uma importante Instituição de Pesquisa Científica do Estado de São Paulo caracterizada como um centro de referência em Geociências na resposta aos desafios da sociedade, contribuindo com o desenvolvimento das políticas públicas que afetam a vida de todos.

Para ouvir basta clicar aqui.

Fapesp: Estudo reforça relação entre perfil genético e resposta à Covid-19

Resultados preliminares de uma pesquisa em andamento no Centro de Estudos do Genoma Humano e de Células-Tronco (CEGH-CEL) evidenciam a participação de fatores genéticos na determinação da suscetibilidade ou resistência à COVID-19.

Os pesquisadores já coletaram amostras biológicas e informações de oito pares de gêmeos infectados pelo novo coronavírus. No grupo dos irmãos monozigóticos (originados a partir de um mesmo óvulo que se dividiu), quatro dos cinco pares responderam de forma idêntica à doença. Já entre os irmãos dizigóticos (formados a partir de dois óvulos e dois espermatozoides diferentes), os três pares apresentaram respostas diferentes à infecção.

Os dados foram apresentados pela coordenadora do CEGH-CEL, Mayana Zatz, durante o primeiro encontro do Ciclo ILP-FAPESP de Ciência e Inovação de 2020. O evento on-line é organizado pela FAPESP e pelo Instituto do Legislativo Paulista e está disponível no endereço (aqui).

“Queremos explicar o caso de pacientes jovens com formas letais da COVID-19 e idosos ‘resistentes’. Resolvemos pesquisar os dois extremos. Jovens que devem ter variantes genéticas de risco e idosos que são assintomáticos ou tiveram poucos sintomas e, portanto, devem ter variantes genéticas de proteção”, disse Zatz durante sua apresentação.

Vinculado ao Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), o CEGH-CEL é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) financiados pela FAPESP.

Os primeiros casos que chamaram a atenção do grupo de Zatz foram de casais em que o homem teve a forma grave da COVID-19 e a mulher testou negativo para o vírus. Um dos voluntários, de 72 anos, chegou a ficar duas semanas internado na UTI. “A esposa e a mãe, de 98 anos [que vive com o casal], não tiveram absolutamente nada”, disse.

O grupo já recebeu mais de 800 e-mails de pessoas que querem participar do estudo. Dessas, 300 tiveram recolhidas amostras biológicas e formulários epidemiológicos preenchidos, com exames anexados. Há 85 casos de casais chamados discordantes, em que um foi afetado pela doença e o outro não. A pesquisa tem ainda dados de 30 adultos com menos de 60 anos, incluindo crianças, que morreram por COVID-19. As mulheres compõem 70% dos assintomáticos na pesquisa, um dado compatível com estudos internacionais que vêm mostrando a maior suscetibilidade dos homens à doença.

Além disso, seis centenárias que foram expostas ao vírus tiveram material coletado: uma com 104, outra com 106 e três com 100 anos. A de 104 mora com a filha e a neta, que tiveram COVID-19, mas ela mesma não teve nenhum sintoma, apesar do histórico de internações, como a retirada de um rim em 1967, cirurgias de esôfago e bexiga nos anos 1980 e sessões de hemodiálise, realizadas entre 2005 e 2014.

“A partir das amostras coletadas pretendemos estabelecer diferentes linhagens celulares para estudos funcionais, principalmente dos centenários curados e dos indivíduos assintomáticos. A ideia é verificar como essas células se comportam na presença do vírus e tentar entender por que são resistentes. Essa será uma resposta muito importante para entendermos a doença”, disse a pesquisadora.

Sequenciamento em tempo recorde

Além de Zatz, participaram do evento Ester Sabino, professora da Faculdade de Medicina e pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical, ambos da USP, e Rodrigo Calado, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e pesquisador do CEPID-FAPESP Centro de Terapia Celular (CTC).

Sabino mostrou como seu grupo realizou o sequenciamento em 48 horas do novo coronavírus, assim que o primeiro caso foi detectado em São Paulo, em fevereiro (leia mais em: agencia.fapesp.br/32637/).

“É importante ressaltar o caminho que fazemos para chegar em uma pesquisa e como esse sequenciamento do coronavírus pôde ser feito num curto espaço de tempo. Pesquisa é algo que demora. Eu diria que essa começa em 2012, quando tentávamos entender qual o risco de transmissão de dengue pelo sangue”, disse Sabino durante a apresentação.

A experiência estudando o vírus da dengue levou a equipe a trabalhar com um grupo da Universidade de Oxford (no Reino Unido) para estudar o vírus da zika. Hoje, ao lado de Nuno Faria, da universidade britânica, Sabino coordena o Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE). O projeto, apoiado por FAPESP, Medical Research Council e Fundo Newton (os dois últimos do Reino Unido), tem como objetivo estudar em tempo real epidemias de arboviroses, como dengue e zika. A infraestrutura existente foi essencial para o rápido sequenciamento do SARS-CoV-2.

A parte britânica da equipe começou a desenvolver tecnologia para sequenciar o novo coronavírus assim que começaram os casos na Europa. Por isso, o laboratório de Sabino já tinha tudo pronto para fazer o sequenciamento quando houve o primeiro caso no Brasil.

“É importante estarmos organizados para controlar uma epidemia. Isso passa por ter equipes multidisciplinares, com o apoio de grupos de pesquisa bem estruturados”, encerrou a pesquisadora.

Reprogramação de células

Calado relatou como a equipe do CTC realizou pela primeira vez na América Latina a terapia de células CAR-T. O tratamento é feito com células reprogramadas do próprio paciente (leia mais em agencia.fapesp.br/31656/).

“O segredo da terapia com células CAR-T vem de uma junção das formas como funcionam os nossos linfócitos. Temos dois tipos, os linfócitos T e os linfócitos B. Estes últimos produzem os anticorpos que reconhecem uma série de moléculas no nosso corpo e matam diretamente o alvo. Por outro lado, os linfócitos T reconhecem células com antígenos, ou moléculas específicas, e eles matam as células que possuem esses antígenos”, explicou o pesquisador.

Os pesquisadores coletam o sangue de um indivíduo que tem câncer, separam os linfócitos T e os modificam geneticamente para que eles apresentem uma molécula que tem uma parte do anticorpo na superfície e uma que reconhece uma proteína específica da célula do câncer, a NHC.

“Esses linfócitos são multiplicados numa quantidade muito elevada e então são injetados de volta no paciente. No primeiro caso, 30 dias depois de iniciado o tratamento, o paciente teve uma remissão quase total do câncer”, disse.

Calado ressaltou que um passo importante foi o estabelecimento da tecnologia no Brasil, a um custo equivalente a 10% do que é oferecido pela indústria farmacêutica no exterior. Além disso, a plataforma estabelecida no CTC proporciona desenvolver tratamentos para outros tipos de tumor mais prevalentes no Brasil.

Para assistir ao seminário na íntegra, basta acessar aqui

Fonte: André Julião | Agência FAPESP

Dia do Biólogo: Conheça a história de profissionais do Instituto Butantan que compartilham a paixão pela biologia

A bióloga Fernanda Faria, do Instituto Butantan

Hoje, 3 de setembro, é comemorado o Dia do Biólogo, em referência aos profissionais que se dedicam a estudar e trabalhar com a vida e os organismos vivos, sejam plantas ou animais, vírus ou células. No Instituto Butantan, os biólogos são especialistas que atuam não somente nos cuidados com os animais peçonhentos e venenosos, como também em laboratórios de pesquisa e até nas fábricas de soros e vacinas.

Para esta edição do Butantan Notícias pedimos que duas biólogas compartilhassem suas experiências de acordo com os locais em que atuam: na produção de vacinas e em bancada de pesquisa.

Além de mostrar essas formas de atuação em biologia no IB, também contamos a história de um colaborador cuja família tem o amor pela biologia em comum.

Fernanda Faria, bióloga no Laboratório de Biologia Molecular

A partir das glândulas salivares de sanguessugas e carrapatos, Fernanda Faria estuda moléculas que trabalham na coagulação sanguínea, em agregação plaquetária e inflamação, com o objetivo de encontrar novas moléculas para medicamentos que tratem diversas doenças.

“Eu sempre tive uma paixão pela área de biológicas, por isso decidi fazer biologia. No segundo ano da faculdade, eu estava de férias e buscando algo para fazer, então vim bater na porta do Laboratório de Fisiopatologia e comecei um estágio com a Ana Marisa Chudzinsk. Fiz minha Iniciação Científica com ela, depois fiz o mestrado pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e o doutorado também. Em 2003, eu prestei um concurso para pesquisador e em 2004, após defender meu doutorado, assumi como pesquisadora no Laboratório de Bioquímica, que mais pra frente se transformou no de Biologia Molecular. Sabendo que sou bióloga, todo mundo olha para mim e pergunta sobre plantas. Apesar de admirar a natureza, a atividade em campo nunca me atraiu muito, eu sempre gostei de ficar na bancada mesmo, desde a faculdade. Quando vim para o Butantan, a proposta do trabalho contava com um pouco de exercício de campo. Era uma pesquisa com sanguessugas, então eu ia a campo para buscá-las em uma fazenda de criação de búfalos, no Rio Grande do Sul, que tinha diversos açudes. Então, tínhamos que entrar nos açudes junto com os búfalos, esperar elas grudarem na gente e assim coletar. Mas isso não era muito agradável. Hoje em dia, já não preciso do animal, nem de coletar ele em campo, pois já montamos um banco de sequências que me permite construir proteínas recombinantes por meio de clonagem. Ser bióloga para mim é estudar a vida, temos diversas áreas de atuação e, na minha, eu busco novidades para melhorar a vida humana e até animal, através das moléculas que estudamos. Nessa profissão eu sou feliz e me realizo. Eu sempre morei na região do Butantã, então visitava bastante o IB e desde pequena falava que viria trabalhar aqui um dia. Então eu realizei um sonho.

Eu tenho orgulho de todos os meus trabalhos e do fato de termos esse banco de moléculas de duas espécies de sanguessugas, de uma espécie de carrapato e de uma lagarta também. Então, o trabalho que foi empenhado no desenvolvimento desse bancos é algo que me orgulha bastante.

Para quem está na biologia eu digo que não pode ter medo de arriscar, de buscar algo novo, tem que ir atrás dos sonhos. Dizem que é uma área não muito bem paga, mas eu acho que em tudo o que fazemos por amor conquistamos grandes feitos, eu acho que vale a pena. Tenho uma sobrinha que fez biologia e hoje está na Bélgica fazendo mestrado, na área de biologia marinha, então estimulo que as pessoas façam e busquem o que querem.”

Rosana Paoli bióloga na producão da vacina contra dengue

Há 30 anos, Rosana trabalha no Instituto Butantan, com vírus e vacinas a partir da cultura de células. Sua carreira é formada pela participação em projetos importantes como da vacina contra a raiva, rota vírus, influenza e zika vírus.

“Na escola, eu sempre gostei da área da saúde, gostava mais de estudar ciência, era uma matéria que sempre me chamou mais a atenção. No colégio eu também tive aula em laboratório, então tive contato antes com esse universo, e me identifiquei muito durante essas aulas. Na época do vestibular cheguei a cogitar medicina, mas escolhi biologia. Nas aulas, as matérias de microbiologia, genética e fisiologia humana sempre me chamavam mais a atenção. Na faculdade, eu tive aula com o Professor Canter, que nos avisou de vagas de estágios abertas no Butantan. Eu estou no Butantan desde 1989 trabalhando com vírus e vacinas. Em março deste ano fiz 30 anos de casa. Entrei, como estagiária, para trabalhar no laboratório que na época trabalhava com vírus neurotrópicos, e que depois virou e seção da vacina contra a raiva. Neste setor tinha a parte de cultura de células e fui direto trabalhar com isso. Passei por todos os setores dentro da produção da vacina mas me identifiquei mesmo com a cultura celular. Ajudei no desenvolvimento da vacina da raiva em cultura de células Vero, que são de rins de macacos, com a Neuza Frazatti. Trabalhei com ela por 20 anos. Em 2006, veio o projeto rotavírus e trabalhei no desenvolvimento de produção desta vacina em cultura celular. Em 2009, ajudei no startup da vacina influenza, mas desta vez saí da área de cultura celular para trabalhar com o ovos de galinha. Em 2015, quando iniciou o projeto zika vírus fui chamada para participar do desenvolvimento da vacina em cultura de célula. Em 2017, fui chamada para vir para a produção da vacina contra a dengue, dessa vez também com cultura celular. Nunca fui muito amiga de trabalhar com os animais diretamente. A cultura de células foi, para mim, uma novidade, nunca tinha visto antes. Aquilo me despertou algo e eu percebi me dei bem. Cultivar células não é para todos, a gente costuma dizer que tem que “ter mão” para fazer isso, elas não se multiplicam com qualquer pessoa. Você chega até a conversar com elas. Eu me sinto muito realizada porque, hoje, embora eu tenha pensado em fazer medicina, vejo que trabalho para salvar vidas, pois fazer vacinas significa isso, então eu sou realizada profissionalmente. O IB é uma escola, é muito bom trabalhar aqui, pois além de desenvolvimento, eu estou na produção das vacinas também. O que me encanta na profissão é o desafio, o novo, a expectativa com os projetos, se perguntar se vai dar certo. É o desafio do desconhecido. Com o projeto da vacina contra a raiva em cultura celular, nós ganhamos um prêmio, então é gratificante ver que seu trabalho está sendo reconhecido. Todo dia é um desafio novo, a cada produção de lote de vacina liberado é uma vitória. Ser um biólogo é aprender todo dia, seja dentro do laboratório, seja dando aula ou na produção de algum produto, é sempre um aprendizado e é preciso estar sempre atualizado, pois sempre haverá um novo equipamento e novas tecnologias. A biologia é uma profissão que tem muitos campos de atuação, então ao fazer a faculdade, você pode se encontrar em várias áreas. Para mim, biologia é observar todo dia, descobrir coisas novas. É sobre a vida.”

Família Dias Ho

O gosto e a paixão pela biologia também são encontradas em algumas famílias quando tios, pais ou filhos compartilham essa escolha seja de forma espontânea ou com alguma influência. No caso da família Dias Ho, o acaso e a influência trabalharam juntos, pois, foi durante a faculdade de Ciências Biológicas, que Paulo Lee Ho, pesquisador do Serviço de Bacteriologia do IB, conheceu a esposa June Ferraz Dias, docente do Instituto Oceanográfico da USP. Juntos eles tiveram as gêmeas Joana Dias Ho e Paula Dias Ho, hoje com 24 anos e formadas também em biologia (não por acaso na mesma faculdade que os pais frequentaram). Joana também faz parte hoje da grande equipe de biólogos do Butantan. Ela faz mestrado no Laboratório de Bacteriologia.

“Indiretamente acho que recebemos a influência dos nossos pais. Nós admiramos muito eles e a biologia sempre esteve muito presente em nossas vidas. Minha mãe que é bióloga marinha, quando nos levava para a praia, sempre mostrava os peixes, falava dos camarões e mariscos, e meu pai também. A gente sempre via ele aqui no Butantan, ouvíamos ele falar das pesquisas. Até no jantar eles ficavam discutindo coisas da área”, contou Joana. Ao ouvir Paulo dizer sobre sua escolha por biologia, feita há 35 anos, não é difícil entender o porquê da filhas também optarem pela área. “O que me encanta na biologia são as possibilidades, as belezas, são as surpresas, porque entender uma pecinha da vida é muito gratificante. A gente também tem um viés social muito forte, por isso estamos no Butantan, para poder retornar à sociedade o que a sociedade nos deu. Então, trabalhamos para isso, para dar esse retorno em forma de um produto que vai chegar à população ou na forma de um conhecimento fundamental, que vai ajudar a sociedade a construir melhor as suas possibilidades”, finaliza Paulo.

Fonte: Caroline Roque, do Instituto Butantan

Governo de SP prepara desmonte de áreas protegidas antes mesmo da votação na Alesp

Minuta de decreto elaborada pela Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente propõe a transferência automática de todas as áreas administradas pelo IF para a Fundação Florestal e foi apresentada ao Conselho Estadual de Meio Ambiente no dia 26/8. O IF não constava da versão original do projeto de Doria, que inicialmente previa extinguir a Fundação Florestal: “Houve uma troca de instituições horas antes de o PL ser publicado”, dizem os funcionários do IF, que é autossustentável e arrecada R$ 18 milhões por ano.

O Instituto Florestal (IF), um dos dez órgãos públicos que o governador João Doria (PSDB) pretende privatizar, responde por nada menos do que 47 áreas protegidas, somando mais de 51.500 hectares de Mata Atlântica e Cerrado, no interior do Estado de São Paulo, em que restam cerca de 8% destes biomas e plantios experimentais. Estas áreas são utilizadas pela população dos municípios do interior paulista como espaços de lazer e recreação em contato com a natureza, e várias delas proporcionam o abastecimento público de água para a população. Provêm serviços e benefícios à população dos municípios das regiões administrativas de Bauru, Barretos, Campinas, Franca, Marília, Ribeirão Preto, São José dos Campos, São José do Rio Preto, São Paulo e Sorocaba, mostrando ampla inserção no interior paulista.

“Essas áreas possuem relevante valor para a conservação, pois contribuem de forma significativa na conservação da água, na manutenção do clima, na conservação da biodiversidade e na manutenção dos demais serviços ecossistêmicos, além de serem de suma importância para o desenvolvimento das pesquisas desenvolvidas pelo corpo técnico da casa, de outras instituições de pesquisa e pelas universidades, não só de São Paulo, mas de todo Brasil e mesmo de outros países”, dizem os funcionários do IF em declarações prestadas ao Informativo Adusp.

“Diante da mobilização da sociedade contra a extinção do IF, o governo agora caminha para, independentemente da aprovação do PL 529/2020, transferir todas as áreas para a Fundação Florestal por decreto, mais uma vez sem ouvir os funcionários que trabalham nessas áreas e no Instituto Florestal, a comunidade científica e a comunidade envolvida com essas áreas”, denunciam os servidores. “Nesse sentido, foi elaborada nesta semana pela Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente (SIMA) uma minuta de decreto que propõe a transferência automática de todas as áreas administradas pelo IF também para a Fundação Florestal, a qual foi apresentada na reunião do Conselho Estadual de Meio Ambiente em reunião realizada no dia de hoje [26/8]”.

A Fundação Florestal não tem experiência na administração de áreas de produção florestal (76% das mantidas hoje pelo IF), nem no desenvolvimento das pesquisas, dizem os funcionários do IF. “Para que consiga fazer gestão dessas áreas será necessária no mínimo a contratação de 47 funcionários e um gerente para acompanhamento das atividades dessas áreas”.

Para contratar no mínimo um gestor para cada área, com base nos valores de salários e benefícios atualmente pagos pela Fundação Florestal, além dos encargos trabalhistas, ela teria que desembolsar cerca de R$ 420 mil por mês, ou R$ 5 milhões por ano, apenas com os novos gestores contratados, “e esse valor é quase o dobro do valor de custeio do Instituto Florestal”.
Não há estudo, diagnóstico e nem “motivos reais para a extinção”

De acordo com os funcionários, “a extinção do IF e transferência das suas áreas desrespeita o artigo 272 da Constituição Estadual, que determina que o patrimônio dos institutos de pesquisa não pode ser transferido sem audiência da comunidade científica e aprovação prévia do Poder Legislativo”. As medidas propostas pelo governo estadual não contam com “nenhum estudo nem diagnóstico sobre o Instituto Florestal”.

Não há motivos reais para a extinção, prosseguem. “Muito pelo contrário, o Instituto Florestal presta relevantes serviços à sociedade e esses serviços ficarão assim ameaçados diante do desmonte proposto”. O abaixo-assinado contra a extinção do IF já conta com 18.150 assinaturas. Várias emendas de deputados pedem a supressão do artigo 66, que trata da extinção do IF e da transferência das áreas protegidas que administra.

Segundo o relato dos funcionários ao Informativo Adusp, o IF não constava do PL 529/2020, mas sim a Fundação Florestal, órgão público da administração indireta. “No momento da divulgação do PL 529/2020 houve o anúncio que a Fundação Florestal estaria no rol de instituições a serem extintas”, em tese por possuir “mais de 100 cargos de confiança em sua estrutura de gestão”. Porém, de última hora a Fundação Florestal foi retirada da minuta do PL — e quando da publicação do projeto no Diário Oficial o Instituto Florestal passou a constar das Disposições Transitórias (artigo 66), “indicando que houve uma troca de instituições horas antes de o PL ser publicado”.

O Instituto Florestal não possui cargos de confiança (livre provimento). É uma instituição autossustentável que arrecada cerca de R$ 18 milhões anuais, mais do que recebe do governo do estado — cerca de R$ 3 milhões anuais. Conforme parecer da própria SIMA, exarado em dezembro de 2019, uma eventual extinção do IF não traria economia de recursos ao Tesouro Estadual.

Atualmente o IF tem em seus quadros 551 funcionários públicos concursados e estatutários. Pesquisadores científicos, especialistas ambientais, engenheiros, funcionários das carreiras de Apoio à Pesquisa e auxiliares de Serviço Geral são as principais carreiras. Como não possui cargos de confiança, “a extinção para fins orçamentários é descabida pois não implicaria nenhuma economia aos cofres públicos”.
Áreas protegidas são bancos de germoplasma de espécies nativas e exóticas

Na avaliação dos funcionários, a eventual extinção do IF poderá levar a prejuízos às pesquisas, ao manejo sustentável, à proteção ambiental e aos trabalhos de educação ambiental e uso público em desenvolvimento nas áreas protegidas atualmente administradas pelo órgão. “Poderá ocasionar o sucateamento e até futura privatização das áreas como as florestas e estações experimentais. Essas áreas não são meramente plantios, são bancos de germoplasma, para conservação ex situ tanto de espécies nativas quanto exóticas. A falta dessa orientação na gestão dessas áreas, ou seja, do manejo florestal embasado pela pesquisa poderá resultar em perdas incomensuráveis de diversidade genética das espécies envolvidas”, explicam.

Também poderá haver sobrexploração das áreas com cortes de madeira em quantidade não dimensionada pela pesquisa, atendendo a necessidades de recursos financeiros do novo órgão gestor.

Outra questão é que essas áreas estão sob a proteção do artigo 272 da Constituição Estadual, por estarem sob a administração do IF, e ficarão mais vulneráveis sem essa proteção.

“Nas 47 áreas que administra há várias década, o IF conta com equipes de funcionários públicos de carreira que desempenham suas atividades e por isso detém expertise na gestão, produção e no desenvolvimento de pesquisas florestais com foco na proteção, melhoramento genético, conservação de sementes nativas e no desenvolvimento e manutenção dos bancos de germoplasma, entre outras. Uma área protegida jamais será bem administrada apenas com a presença de um gestor, diversos outros funcionários são fundamentais: engenheiros, técnicos de campo, tratoristas, guarda-parques, educadores ambientais etc”.

Fonte: Adusp