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O que acontece com os animais vítimas de práticas ilegais no Brasil?

Giuseppe Puorto, diretor do Museus Biológico e Histórico do Instituto Butantan

Em meados de janeiro, um caso de apreensão de animais no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, foi destaque em sites e jornais. Foi apenas mais um caso desse crime que ocorre diversas vezes. Infelizmente comum, o tráfico de animais aumentou nos últimos meses, segundo Giuseppe Puorto, diretor do Museus Biológico e Histórico do Instituto Butantan. Didático em suas explicações, o diretor esclarece: “E por que aumenta? Tanto o tráfico interno, brasileiro, como do tráfico internacional aumenta, porque alguém compra esses animais!”

No caso mais recente, em que cerca de 200 animais foram apreendidos, o diretor conta que recebeu uma ligação do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) pedindo ajuda, pois os bichos chegaram em situação muito difícil. Tanto filhotes como adultos estavam em recipientes inapropriados. Do total, ficaram no Butantan 98 animais, entre anfíbios, répteis e artrópodes. Os demais seguiram para outros lugares, já que nem todos podiam ser absorvidos pelo Instituto por falta de espaço naquele momento. Quando isso acontece, os animais podem ser encaminhados para outros locais receptivos de fauna apreendida.

Animais do tráfico interno são bichos que circulam dentro do Brasil, geralmente da Amazônia e do Nordeste. E, de acordo com Giuseppe, são principalmente jabutis, papagaios, passarinhos, saguis entre outros. No que se refere ao tráfico internacional, os animais da fauna nacional são levados por estrangeiros.

Por isso a importância do Ibama e de outros órgãos que monitoram os pontos de entrada no Brasil e os traficantes já conhecidos. Chegam ao Instituto muitas corn snakes ou cobras-do-milho, pítons, escorpiões e lagartos. Chegam também aranhas caranguejeiras, espécie que, segundo o diretor, teve um aumento significativo na quantidade nos últimos anos. Assim que chegam, os animais passam por uma triagem, são identificados, registrados e recebem os primeiros cuidados. Na sequência, de acordo com interesse e disponibilidade Institucional, os animais são destinados para os diferentes Setores do I. Butantan ou para entidades externas credenciadas ao recebimento.

O papel do Butantan no recebimento desses animais

Do mesmo modo que saem do Brasil, muitos animais vêm de outros países e, exemplo disso, é uma apreensão de 2019, também realizada pelo Ibama que enviou ao Butantan, vários filhotes, entre eles, dois monstros-de-gila. Venenoso, o lagarto tem como habitat natural o sudoeste dos E.U.A. e noroeste do México, uma área muito quente e seca. O animal, cuja espécie hoje é quase ameaçada de extinção, está exposta no Museu Biológico.  

O Butantan também recebe doações espontâneas da população. É o caso de uma jiboia – resgatada por um caminhoneiro – que chegou do Piauí ainda filhote, no ano de 1999. “Eu recebi esse bichinho bem pequenininho, filhote, preparei um terrário e comecei a cuidar dele. Ele vai fazer 22 anos. Está lindo! Eu tenho esse como grande exemplo legal. Você cuida do bicho, dá condições e ele está aí”, conta Giuseppe, com brilho nos olhos.

O instituto possui a Recepção de Animais vinculada ao Laboratório de Coleções Zoológicas. Giuseppe explica que esse trabalho é rotina e o que assusta, às vezes, é a quantidade de animais apreendidos que chegam. Em virtude do rodízio iniciado desde a pandemia, as equipes se revezam entre as semanas e cada turno conta com 3 colaboradores. Na triagem, cada bicho é cuidadosamente separado em suas respectivas caixas para a identificação. Fazem a contagem das espécies e anotam. E se não souberem o nome de algum animal? Eles separam e providenciam a identificação por meio de consulta com especialistas ou bibliografia. Tudo feito, é hora do Butantan mandar o relatório para o Ibama.

Quando o Butantan tem interesse em alguns dos animais, uma destinação interna é iniciada. Podem ser enviados ao Museu Biológico para a exposição. Nesse animal, a entrada se dá via quarentena em que recebe atendimento veterinário, avaliado clinicamente, passa por exames e, se for preciso, toma medicação. Vencido o período de quarentena e ele não apresentar nenhum problema, poderá ser absorvido para exposição. Os animais também podem ser encaminhados a outras unidades. Anfíbios, geralmente, são encaminhados para o laboratório de Biologia Celular e os artrópodes vão para as coleções zoológicas. Caso cheguem serpentes que são de interesse da área de produção de venenos, também são encaminhadas ao Laboratório de Herpetologia.

Giuseppe lamenta a condição em que esses animais apreendidos chegam, que pode ser deplorável, e alguns, infelizmente, não sobrevivem. “Temos a obrigação de cuidar o melhor possível desses animais, mas muitos chegam numa condição tão ruim que às vezes não aguentam. Quanto isso acontece são enviados para a coleção, ficam como material didático”, diz com pesar.

Da apreensão para um possível lar

O número de casos de apreensão varia muito. A maioria dos casos são de poucos animais, mas os casos de grande apreensões acima de cinquenta exemplares estão aumentando.

A maioria dos animais foi salva das mãos de traficantes, chegando ao Butantan após apreensão. Eles recebem o cuidado necessário e acabam por encontrar um lar. De acordo com o diretor, cada apreensão é uma história, e dois casos com najas são marcantes pela questão da saúde pública e pela questão ambiental. 

Giuseppe conta que em 2017 o Instituto Butantan recebeu muitos eventos grandes. Em um desses casos, chegou uma naja de Balneário Camboriú, Santa Catarina, resgatada, pelos Bombeiros, em uma estação de Tratamento de Águas.

Inicialmente, a naja foi levada para o Zoológico local, mas o lugar carecia de condições para manutenção. Por isso, o Instituto foi contatado para viabilização e tramitação da transferência. “Assim que a recebi, foi oferecido água, porque estava muito desidratada em função da viagem e calor. Está até hoje com a gente”, afirma sorrindo. Neste momento, é possível ouvir a chuva fora do auditório – lugar em que o diretor concedeu a entrevista – e interpretá-la como uma mensagem da natureza, como se quisesse nos dizer que sempre haverá tempo para viver e chuva para renovar a esperança.

Outra naja, vinda de Brasília em agosto do ano passado, também de apreensão, passou por todos os exames de fezes, comeu bem e tem se adaptado dia após dias. Ela recebeu um recinto para chamar de seu e logo receberá um nome, que está em votação pelo público no Instagram do Butantan. “Realizamos eventos dessa natureza, de participação popular, esperando que as pessoas tenham respeito para com os animais. Quando você dá nome ao bicho, você mostra respeito e carinho”, explica Giuseppe.

Junto com a naja de Brasília veio outra cobra peçonhenta, a víbora-de-vogel, natural da Ásia. Sua chegada foi marcante, primeiro pelo fato do Butantan não possuir soro para essa espécie, e, segundo, por conta da pandemia, responsável por reduzir a quantidade de funcionários. Neste caso o manejo então foi realizado pelo próprio Giuseppe, que se comprometeu com o Hospital Vital Brasil do Butantan a reduzir o contato com essa espécie. O soro precisou ser providenciado e chegou quase dois meses depois.

Grato com o trabalho que realiza junto de sua equipe, Giuseppe reflete: “É muito legal você fazer alguma coisa, não que tenha um final feliz, mas que tenha uma atitude responsável. É gostoso dar condições para que os animais vivam por anos, apesar das circunstâncias em que são recebidos.”

Museu Biológico: lar de muitos bichos que chegaram sob as mesmas condições

No final da entrevista, Giuseppe nos convida a conhecer o Museu Biológico e ver alguns animais com o mesmo histórico. O diretor transita com segurança e entusiasmo, como quem está em casa. Logo se avista a jiboia que chegou ainda filhote, vinda do Piauí. “A boneca está aqui, na toquinha dela, olha lá”, brinca, com afeição pelo animal. Embaixo de grandes folhas secas, ela gosta de ficar ali, como se tivesse um telhado sobre sua cabeça. Telhado sob o qual todos os bichos deveriam ficar, seguros, protegidos e livres de explorações humanas. Giuseppe conta ainda que a cobra é muito tranquila e mansa, e que já o acompanhou algumas vezes em programas de televisão.

No museu, nem todos os animais são de apreensão. Há, por exemplo, uma cascavel que nasceu aqui no instituto. Ela faz parte da segunda geração da família. O diretor aproveita para citar seu Instagram @puorto_ onde diz contar muitas histórias como essa.

Mais à frente está o monstro-de-gila, que também chegou bem pequeno de uma apreensão e hoje vive num recinto especialmente montado para ele. “Durante o dia fica escondido sob uma toca de pedras. Então, aqui a gente dá uma condição pra ele, que dorme o dia todo, filho da mãe. Mas às vezes está bem visível e passeando para alegria dos visitantes”, fala em tom de brincadeira enquanto seus olhos sorriem.

Na mesma apreensão, veio ainda pequeno um dragão barbudo, lagarto australiano que normalmente se trata de um bichinho muito dócil e amigável.  Alguns passos depois, há um recinto grande e vazio, que abrigava duas pítons que também chegaram bem pequenas na Recepção, na década de 90 e logo foram destinadas ao Museu. Giuseppe conta que uma delas tinha, pelo menos, cerca de 26 anos e media quase cinco metros. A outra foi resgatada há uns dez anos pela Polícia Civil na Avenida Brigadeiro Faria Lima, zona nobre do município de São Paulo. As duas foram doadas para outro órgão porque o espaço não tinha mais condições de mantê-las.

Passamos por outro recinto que abriga 4 lagartixas-leopardo apreendidas em 2019, originárias do Oriente Médio. Os animais, que estão em fase de crescimento, haviam passado por manutenção e foram separados em pequenos alojamentos para se alimentarem. Mais adiante, ainda pelos corredores largos do Museu, há um corredor com muitas aranhas e entre elas estão as caranguejeiras, todas vindas de apreensões.

Casos como esses, de acordo com Giuseppe, “são marcantes pela condição, pela repercussão e por mostrar a grande fragilidade que temos no Brasil para a entrada e saída dos animais”. O diretor ainda ressalta que após o caso da naja de Brasília surgiram algumas mudanças. Quem tinha bicho em casa ilegalmente começou a fazer entregas voluntárias em órgãos competentes, já que assim fica livre de sanção. Outra iniciativa significativa foi o aumento de blitz pelo Ibama e Polícias, trabalho realizado em todo o Brasil.

A recomendação é de que quem tiver animal irregular em casa, precisa procurar um órgão competente. Dependendo do tipo de animal, pode ser entregue em um CETAS (Centro de Triagem de Animais Silvestres), por exemplo, mas nunca ser solto na natureza. Dessa forma, ninguém é colocado em risco.

Quer saber quais outros animais o Museu Biológico tem? Clique aqui e explore o Tour Virtual que o Butantan preparou para você! 

Fonte: Instituto Butantan

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