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Entrevista: bisnetos de Alberto Löfgren lamentam possibilidade de extinção do Instituto Florestal

Bisnetos de Alberto Löfgren em visita ao Instituto Florestal

Nas últimas semanas ocorreram diversas manifestações em relação ao projeto de lei nº 529/2020, que prevê medidas voltadas ao ajuste fiscal e ao equilíbrio das contas públicas do estado de São Paulo. Entre as diversas ameaças que o PL traz para as instituições públicas, uma em especial tem alertado ao setor ambientalista.

Inicialmente prevendo a extinção da Fundação Florestal, atual órgão responsável pela gestão das Unidades de Conservação paulistas, após forte mobilização da sociedade, o texto foi alterado às vésperas de sua apresentação. O novo texto troca a Fundação pelo Instituto Florestal. Esta inclusão tem gerado, novamente, intenso movimento em defesa da instituição, ressaltando seu legado e importância para a pesquisa e conservação ambiental.

Conservar a natureza é um compromisso intergeracional e é fundamental que olhemos para a dimensão simbólica da instituições. Vejamos, por exemplo, a importância do Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos, criado há mais de 100 anos e que possui um grande simbolismo para os estadunidenses. O Instituto Florestal é considerado uma das primeiras instituições dedicadas à conservação das matas paulistas. Sua raiz está na criação, em 1886, da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo.

A Comissão foi integrada por técnicos e cientistas. Dentre eles, o naturalista sueco Alberto Löfgren*. Sua atuação teve grande relevância para a formação do pensamento conservacionista e científico do país, em especial pela organização da primeira instituição responsável pela conservação das matas e criação de áreas protegidas no Estado.

O sueco propôs a criação do Serviço Florestal em São Paulo (atual Instituto Florestal), tendo publicado em dezembro de 1895 o texto fundador desse órgão, intitulado “Para que serve um Serviço Florestal em São Paulo”. No artigo sugere a declaração de utilidade pública do “terreno necessario á installação de um Horto Botanico com Campos de Experiencia e Serviço Florestal, no lugar denominado Pedra Branca, na Serra da Cantareira” , publicado no dia 10 de fevereiro de 1896 através do Decreto Estadual nº 335. Destinado à produção de mudas, estudos relacionados a recuperação de áreas e produção florestal para ferrovias e agricultura, o Horto Botânico de São Paulo é considerado uma das primeiras áreas protegidas do Brasil. De São Paulo o Serviço Florestal se expandiu para outras áreas do Estado, de poucas Reservas para um dos maiores sistemas subnacionais de áreas protegidas do Brasil.

Em dezembro de 2019, Löfgren foi homenageado pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) na 15ª edição do prêmio Paul Donovan Kigar de Honra ao Mérito por Realizações de Vida. O Prêmio foi recebido por Eric Nilson Löfgren e Dayse Janot Löfgren, bisnetos do sueco.
Tendo em vista a possibilidade de extinção do órgão criado pelo seu bisavô, conversamos com os dois para que apresentassem sua percepção sobre o tema. O advogado Eric Nilson nos concedeu a entrevista que segue.

Como você se sentiu ao receber a notícia de que o governo quer extinguir a instituição criada por seu bisavô? Um dos primeiros órgãos conservacionistas do Brasil.
Extinguir, neste País, qualquer instituto de pesquisa importa cravar de morte a ciência, pois esta assenta sobre o conhecimento adquirido ao longo de décadas, no mínimo, mediante pesquisas realizadas por abnegados cientistas, independente de nacionalidade mas em prol da nossa coletividade, pois desenvolvidas em solo brasileiro. Como bisneto de um grande cientista que devotou seus estudos ao engrandecimento da ciência no Brasil, a pretensa e desarrazoada extinção da instituição criada pelo grande e inigualável Albert Loefgren importa inferir que a Administração Pública do Estado de São Paulo, por seus órgãos de direção, nada entendem de como se produz conhecimento científico no país, menos ainda no mais desenvolvido e pujante estado federativo do Brasil. Desconhecer a Ciência significa ignorar a Humanidade. É retroceder à Idade das Trevas (Baixa Idade Média para os ignóbeis).

Loefgren, em 1900, já destacava a importância da pesquisa para a conservação da natureza e seus benefícios diretos e indiretos. Para você, qual a importância das instituições públicas, atualmente, na produção de pesquisa científica?
Meu bisavô, Alberto Loefgren, dos fins do século XIX e início do seguinte, em todos os seus estudos e artigos científicos sempre destacou a importância da conservação da natureza e seus benefícios diretos e indiretos, para a própria flora e fauna, mais ainda para os humanos, pois sem a natureza o homem não sobrevive. As instituições públicas como o Instituto Florestal assumem papel ímpar no desenvolvimento da pesquisa científica no Brasil, vez que somente órgãos públicos como esse detém “inteligência” e “expertise” para tratar de assuntos dessa importância. O Capital Humano-Intelectual do Brasil, desde a vinda da Família Imperial em 1808, sempre se fundou e se estabeleceu na capacidade de a Administração Pública se assenhorar dos melhores cérebros e intelectos. Desafia-se quem da iniciativa privada tenha produzido algum benefício intelectual em prol do desenvolvimento nacional? E sem apoio governamental? Pesquisa científica no Brasil sempre se desenvolveu nos órgãos públicos, que selecionam por concurso público as melhores inteligências a bem do interesse público. Instituições públicas produzem material científico para uso por todos sem se importar quem auferirá lucro. É patrimônio público, indispensável ao engrandecimento do País. O lucro é universal, sócio-nacional, o lucro é intelectual, o lucro é exponencial; não se mede por cortes orçamentários, nem pós-modernas políticas de gestão administrativas (oriundas da iniciativa privada, que nada conhecem da res publica).

Como você vê a situação atual das instituições públicas quanto aos recursos financeiros, humanos, apoio governamental?
As instituições públicas, no momento atual, em quase todos os governos (federal, estaduais e municipais), encontram-se em situação crítica, vez que não há recursos financeiros suficientes; os orçamentários são remanejados conforme a conjuntura político-econômica, político-eleitoral (vide emendas parlamentares); o apoio governamental faz-se escasso porquanto educação, saúde, ciência e tecnologia nunca foram prioridades governamentais há pelo menos 60 anos no Brasil. Flora, fauna, floresta, cerrado, pântano, caatinga et coetera os brasileiros conhecem faz séculos. Estudos científicos desenvolvidos por curiosos, interessados, cientistas (como meu bisavô Alberto Loefgren), muitos há; aproveitados, aceitos, reconhecidos, assumidos como importantes, imprescindíveis pela Administração Pública quantos? Ou seja, que apoio governamental, uma autoridade governamental dá (e dará) a algo que não conhece? O universo do atual Governador do Estado de São Paulo é muito limitado; seu ramo empresarial nunca lhe permitiu conhecer além fronteiras do marketing/merchandising empresarial e político. Em resumo, as instituições públicas estão ao desamparo. Pobre Estado. Pobres de nós cidadãos.

Na sua opinião, quais os impactos em extinguir e/ou fragilizar as instituições responsáveis pela conservação da natureza?
Os impactos dessa política de desmantelamento da organização político-administrativa relacionada à conservação da natureza no Estado de São Paulo, e que se reflete em todo o Brasil, são devastadores. Assemelha-se ao louco portando uma motosserra e que, após a acionar, não sabe como parar e quais estragos produziu. É preciso dizer mais. Os impactos seriam muito danosos porquanto surgem de ações humanas/atos políticos administrativos que se apresentam desinteressados em proteger a natureza e os homens. A medida é demagógica, desprovida de razoabilidade.

Como você acha que seu bisavô se sentiria ao saber que, mais de 100 anos depois, o governo ainda não entendeu a importância de conservar a natureza?
Com toda certeza, meu bisavô muito pensaria sobre a nacionalidade, que ele elegeu (ser brasileiro), a despeito de todo o afeto e respeito recebido dos brasileiros, haja vista que essa atitude governamental revela tão-só o desprezo com que a administração pública trata as matérias que importam ao bem-estar dos cidadãos. O direito à vida, à saúde, ao bem estar estão ligados à conservação da natureza, sendo este nosso “habitat”. Ou, em suma, seu vigor nunca desapareceria e sim personificaria uma vela acesa por outro Loefgren e tantos de seus discípulos.

Bora Gente! A luta continua!

Dayse Löfgren, professora aposentada da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), também nos deixou abaixo seu depoimento acerca da possibilidade de extinção do Instituto Florestal.

“Inconcebível tal decisão ( sua simples sugestão já seria uma aberração) ignorando o grande legado preservado desde sua criação, fruto da dedicação e sacrifício de várias gerações de cientistas, técnicos e funcionários extremamente devotados e comprometidos com a preservação, conscientização e educação ambiental. Além de ser um desserviço ao Brasil e sua grande riqueza natural , igualmente considero essa decisão um gesto mesquinho, fruto de uma visão obtusa e tacanha. Contrasta com aquelas do Governo Sueco – a nobre Coroa Sueca – que nos enviou generosamente grandes botânicos ( para criar e desenvolver nossos primeiros Parques e Jardins Botânicos), entre aqueles, meu bisavô, há mais de 100 anos. Aqui, Alberto Löfgren trabalhou criando, estudando a flora brasileira e divulgando tal preciosidade para o mundo em seus múltiplos artigos. Não posso acreditar que o Sr. Governador queira manchar sua biografia de homem inteligente e elegante com decisões como essa, fato que certamente não poderá trazer nenhum orgulho a seus conterrâneos, nem aos cidadãos de mente esclarecida, nem — o que é pior— aos seus próprios descendentes. Não mesmo!!!”

Dayse Löfgren

*Utilizamos no texto as duas grafias: Löfgren e Loefgren. Ambas estão corretas.

Fonte: Felipe Zanusso e Paulo Muzio para o Blog da Unicamp

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