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Pressão sobre a atenção primária à Saúde vai aumentar, diz pesquisadora do Instituto de Saúde

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Reportagem de Fernando Canzian, na Folha de São Paulo, chama a atenção para o fato de que, diante da pandemia do Coronavírus, algumas cidades e estados brasileiros passaram adotar o sistema das “duas portas”, uma para a Covid-19 e a outra para os pacientes crônicos.

Segundo Denize Ornellas, diretora de Comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, as equipes já atuavam no limite antes da epidemia, mas agora muitos também estão adoecendo no trabalho. O atendimento via redes sociais e aplicativos de telemedicina foi ampliado, mas ainda assim é limitado pela falta de acesso a telefones e internet ou pela dificuldade de muitos pacientes com a utilização desses meios.

Mônica Viana, pesquisadora do Núcleo de Sistemas e Serviços de Saúde do Instituto de Saúde, confirma que a atenção primária à saúde (APS) tem um papel indispensável na prevenção e no tratamento não só da Covid19, mas de toda a saúde dos brasileiros. Esse papel, que já era crítico, ficou mais intenso com a atual pandemia e a pressão ainda deverá aumentar com o crescimento da curva de infecções, que continua crescendo e deve atingir o pico nas próximas semanas.

“A APS está enfrentando grandes desafios em virtude do novo coronavírus, e precisou criar novas formas de manter todas as demais ações de proteção e de promoção da saúde no território e até mesmo adotar medidas ainda em fase de avaliação, como a telemedicina”, acrescenta Mônica. Segunda ela, conseguir realizar tudo isso com os recursos humanos e materiais disponíveis é uma tarefa “hercúlea”.

Como mostram os depoimentos de profissionais de Saúde colhidos pela reportagem, a pesquisadora também acredita no aumento da demanda por atendimento pela rede de atenção primária à Saúde, e acrescenta dados publicados pela Secretaria da Saúde do município mineiro de Nova Lima, como exemplo do que está ocorrendo no país. Segundo nota técnica dessa secretaria, “diante do cenário atual, os serviços de APS precisam se reorganizar e se reinventar para responder com eficiência ao enfrentamento da pandemia mas, concomitantemente, garantir a continuidade das ações próprias da APS, tais como promoção da saúde, prevenção de doenças e provimento de cuidado às famílias e comunidades nas mais diversas situações, sobretudo, nas condições crônicas”.

Para enfrentar esse quadro, Mônica acredita que “mais uma vez teremos que contar com a potência inovadora do SUS no âmbito local e na micropolítica. Ações inovadoras já estão surgindo e esperamos que elas possam crescer e se multiplicar, servindo de inspiração neste momento tão difícil. O meio científico tem a missão de avaliar e dar suporte para essas estratégias da APS”.

Ainda segundo a reportagem, os agentes de saúde pública em várias regiões do Brasil alertam para essa “terceira onda”, que vai pressionar ainda mais a atenção primária à Saúde: o aumento dos pacientes graves pela Covid-19 e a falta de pessoal e de equipamentos de segurança — que atinge a maior parte dos profissionais. A Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), com 47,7 mil equipes filiadas, prevê novo estresse no sistema nas próximas semanas diante da falta de acompanhamento de pacientes crônicos, sobretudo de hipertensos, cardíacos e diabéticos. Essas doenças, que atingem até 40% e 20% da população, respectivamente, são duas das principais comorbidades associadas às mortes pela Covid-19.

“Uma coisa é deixar pacientes sem acompanhamento por quinze dias. Outra é por um ou dois meses”, afirma Rita Borret, presidente da ABMFC no Rio de Janeiro, à reportagem da Folha de São Paulo. Ela acrescenta que as consultas normais em muitas unidades de saúde cariocas foram “destruídas a zero”, e que faltam celulares nos postos públicos para tentar realizar atendimentos à distância. “Na epidemia, os agentes comunitários também não estão conseguindo mais circular tanto nas comunidades, perdendo o acompanhamento de casos crônicos”, diz.

No Recife, o médico Bruno Pessoa relatou ao menos três casos de pacientes graves, sem o Coronavírus, que não puderam dar continuidade a tratamentos ou diagnósticos em sua unidade de saúde, que atende cerca de 4.000 pessoas. “O sistema já era congestionado antes, com filas de meses para atendimento. Com a Covid, muitos casos graves são mandados para casa”, diz. Segundo Pessoa, os kits de testes disponíveis para Coronavírus na capital pernambucana ainda não atendem nem a metade da demanda.

Segundo o médico Rodrigo Lima, do Distrito Federal, mais da metade dos pacientes que buscavam atendimento no dia a dia desapareceram. Além dessa preocupação, os agentes seguem relatando enorme subnotificação de casos prováveis de Covid-19. Os casos da chamada SG (Síndrome Gripal), que, além de febre, incluem mais um sintoma, como tosse — não são relatados nem testados para confirmar a Covid-19. Assim, só comunicam as chamadas SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), geralmente relacionadas ao Coronavírus. Além da falta de equipamentos de proteção individual (EPIs)e dos atrasos na chegada de kits para testes, há relatos em Brasília de que a divulgação de seus resultados, quando existem, chegam a demorar quase três semanas.

Nos estados menos atingidos pela pandemia, há um esforço para manter o acompanhamento de doentes crônicos. “Pacientes com câncer, doenças cardíacas, diabetes e mesmo problemas ortopédicos têm sido atendidos”, diz Sandro Rodrigues, chefe da Superintendência de Atenção Integral à Saúde de Goiás.

Em Florianópolis os atendimentos dos demais pacientes estão praticamente normais, segundo a médica Livia Hinz Caliço, que atende cerca de 15 mil pessoas em quatro equipes localizadas na parte continental do município. “Santa Catarina começou cedo o isolamento, em 16 de março, e não tem problemas de falta de leitos de UTIs. Vamos ver o que acontece agora que as coisas estão voltando a funcionar”, afirma.

Fonte: Instituto de Saúde

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