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Instituto Florestal pesquisa sementes de araucária, espécie ameaçada de extinção

araucaria

Vejo uma Araucária,
solitária pela janela

Tomando sozinha uma fria geada,
e me pego pensando

Na tristeza que abete sobre ela,
ao ver suas irmãs e irmãos

Cortadas e ostentadas
em restaurantes e salões

O trecho do poema de Felipe Teixeira Moraes fala do único pinheiro nativo brasileiro, ameaçado de extinção. Em 2013 a araucária passou para a categoria “Criticamente em perigo” na “Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas” da União Internacional para a Conservação da Natureza – IUCN em função da contínua redução da população.

Originalmente a área florestal da Araucaria angustifolia era de 185.000 km2, distribuindo-se nas regiões sul e sudeste do país, principalmente no estado do Paraná. Entretanto, a partir do começo do século passado, a espécie sofreu uma indiscriminada exploração em função de sua relevância econômica e social, o que levou à redução de seu habitat natural. Estima-se que atualmente esteja limitada a uma pequena porcentagem (de 1 a 5%) da área original.

Considerada um “fóssil vivo”, já que é uma espécie primitiva com milhares de anos de existência no planeta, a araucária é um elemento importante para a biodiversidade da Mata Atlântica. Podendo atingir uma altura de até 50 metros quando adulta, e viver em média até os 250 anos, o pinheiro apresenta um tronco alongado com ramificações apenas na copa, possuindo formato semelhante a uma taça.

A araucária é uma espécie dióica, ou seja, existem árvores masculinas e femininas sendo que o pólen produzido nos estróbilos masculinos deve atingir os estróbilos femininos para a fecundação e desenvolvimento das pinhas. A araucária também é famosa pelas suas sementes, denominadas pinhões, consideradas um importante Produto Florestal Não Madeireiro (PFNM), termo que se refere aos diferentes produtos extraídos de ambientes florestais, como frutas, fibras e sementes. Os PFNM constituem um meio de sustento para muitas comunidades, e fazem parte de prática ancestral que mantém a estrutura e funcionalidade das florestas. Sendo apontados como uma forma capaz de manter a biodiversidade de maneira sustentável.

“A redução da área de ocorrência da araucária gera um impacto ambiental negativo para a alimentação da fauna nativa. Os pinhões representam um importante recurso tanto para aves como papagaios, maritacas e gralhas, quanto para mamíferos como veado, anta, paca, porco do mato e esquilo. Socialmente, afeta o sustento de comunidades rurais, e impacta a economia advindo da redução na oferta de madeira, que pode ser produzida em plantios devidamente regulamentados,” explica o pesquisador científico do Instituto Florestal, Roberto Starzynski.

O pinhão também é um alimento de alto valor nutricional, rico em calorias, fibras e vários minerais como potássio, zinco e ferro.

Autor de um estudo publicado no periódico IF Série Registros que analisou a distribuição temporal da queda das sementes da araucária entre os anos de 2012 a 2017, Starzynski constatou, que tanto a produção anual, quanto o período de queda apresentaram variações significativas. A produção de sementes, das 11 árvores estudadas, variou de 172 a 351 kg. O período de queda se concentrou nos meses de março a maio, mas possuiu uma variação de 56 a 94 dias de duração. A pesquisa evidencia a dificuldade de se estabelecer, via legislação, uma data fixa para o início da atividade de coleta.
O experimento foi desenvolvido no Parque Estadual da Serra do Mar – Núcleo Cunha, localizado na região sudoeste do município de Cunha. Representando a maior produção de pinhão no estado de São Paulo, a araucária é uma espécie importante para a paisagem e economia do município de Cunha. Já que atraí turistas, o desenvolvimento de festivais e exposições sobre a árvore, produzindo geração de renda significativa para a economia local.

A araucária também enfrenta dificuldades em relação às mudanças climáticas. Neste cenário, Starzynski aponta que com o aumento de temperatura deve-se esperar uma diminuição da quantidade de pinhões produzidos. “A quantidade de pólen produzido pelos indivíduos masculinos diminui significativamente nos anos com maior temperatura média, com consequências na produção de sementes. Os grãos de pólen são grandes em comparação com outras espécies de coníferas e têm uma velocidade de dispersão relativamente baixa. A umidade é um fator fundamental para a liberação e transporte do pólen.

Em dias de sol e com vento ocorre uma nuvem de pólen, enquanto que nos dias chuvosos a alta umidade e a menor temperatura impedem a liberação e transporte do pólen e, consequentemente, a polinização e produção de sementes. Portanto, as safras apresentam dependência das condições climáticas, que variam de ano a ano, e acarretam diferentes produções anuais”.

Entre os anos estudados destaca-se o de 2015, que apresentou a maior produção de sementes. “Na época da polinização que resultou nesta safra, as condições climáticas foram favoráveis para a produção e dispersão do pólen”, explica o pesquisador.

Um estudo da Universidade de Reading (Reino Unido) revela que as araucárias podem desaparecer por completo até 2070 devido às mudanças climáticas caso não haja intervenções direcionadas para ajudar a garantir sua sobrevivência na natureza.

Roberto Starzynski chama atenção da grande carência de estudos que determinem a intensidade de coleta adequada para garantir a manutenção da espécie e ao mesmo tempo gerar renda para as comunidades coletoras. Por este motivo, o autor enfatiza a necessidade de mais pesquisas sobre espécie. “É através das sementes que se obtém o aumento da distribuição da araucária pelo território, o que é necessário para frear a contínua redução da espécie no país. Estudos realizados a partir das sementes podem fornecer o melhoramento genético da espécie com a consequente produção de mudas de maior crescimento, mais produtivas e melhor adaptadas às diferentes regiões de plantio”, conclui.

Texto: Amanda Nunes
Mais informações: Roberto Starzynski – rostarzynski@hotmail.com

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