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Técnicos e agricultores manifestam preocupação sobre continuidade do programa de extensão rural em SP

cati

Por Bruno Ribeiro

A Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), principal órgão de extensão rural em São Paulo, será restruturada, conforme decreto publicado no Diário Oficial pelo governo do Estado. Segundo a Secretaria de Agricultura e Abastecimento, a Cati passará apenas pela mudança de nome – uma “exigência protocolar” motivada pela fusão desta pasta com parte da Secretaria de Infraestrutura e Meio ambiente. Essa alteração, porém, tem preocupado técnicos e extensionistas. Eles alegam que a restruturação pode afetar cargos e atribuições na Cati e limitar o acesso de agricultores ao programa de extensão rural.

Para o Dr. Carlos Eduardo Galletta, extensionista aposentado e conselheiro da Associação Paulista de Assistência Técnica e Extensão Rural (Apaer), quem mais sofreria com uma hipotética redução do trabalho desenvolvida pela Cati seriam os pequenos e médios agricultores espalhados por mais de 400 municípios. “Pequenos e médios produtores não têm recursos financeiros para pagar consultas técnicas particulares. As dificuldades que eles já apresentam para se manter competitivos no mercado se aprofundariam ainda mais e muitos perderiam suas terras para os produtores da agricultura empresarial. Como consequência, isso resultaria num grave desequilíbrio social, com milhares de famílias engrossando os índices do desemprego e migrando para cidades grandes”, diz.

Nas palavras de Galletta, técnicos, agricultores e cooperativas não são contrários à mudanças pontuais no funcionamento dos órgãos da Secretaria de Agricultura e Abastecimento, mas sim à forma como elas têm ocorrido. “O que mais nos preocupa é que mudanças têm sido feitas à toque de caixa, sem que a sociedade tenha sido chamada para debater. Podemos melhorar a atuação da Cati sem mexer em sua estrutura. Por isso estamos propondo ao secretário que participe de uma audiência na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) e não permita que haja redução no número das chamadas Casas da Agricultura, cujos profissionais fazem contato direto com os agricultores para orientá-los”, afirma.

Com 52 anos de atuação, a Cati exerce papel determinante no avanço da agricultura familiar, que hoje é responsável por mais de 70% dos alimentos consumidos pela população brasileira. E isso é garantido, conforme explica o extensionista, graças ao trabalho exercido pelos técnicos do órgão (engenheiros agrônomos, zootecnistas e médicos veterinários, entre outros) que fornecem, de forma totalmente gratuita, ensinamentos ao homem do campo, para que ele se torne capacitado a garantir uma produção agrícola farta e de qualidade. “Toda a sociedade é beneficiada, uma vez que estes pequenos produtores geram alimentos saudáveis que abastecem os mercados e movimentam a economia do estado”, diz Galletta.

Amanda Regina dos Santos, gerente da Cooperativa dos Agricultores e Agricultoras de Vergel (Coopervel), que congrega 34 produtores e 110 famílias, concorda com o extensionista e cita como exemplo a própria história da Coopervel, situada em Mogi Mirim. “Até 2017, antes do treinamento feito pelo pessoal da Cati e da Fundação Instituto de Terras de São Paulo (Itesp), a cooperativa não tinha uma estrutura mínima para apoiar o agricultor na comercialização dos produtos. Logicamente, não gerava lucro. Agora fechamos contrato com três prefeituras e nosso faturamento previsto para este ano é de R$ 750 mil”, afirma.

Amanda faz questão de frisar que os técnicos da Cati estiveram presentes do início ao fim no processo de capacitação da cooperativa, inclusive fazendo visitas fora do horário de trabalho e até em dias de feriado. “Apesar das dificuldades, eles sempre estiveram presentes”, diz. Dentre as dificuldades da Cati, o extensionista Galletta cita a falta de pessoal como o maior entrave. “Hoje o órgão trabalha com um número de técnicos abaixo do razoável. Isso faz com que eles tenham que se desdobrar no atendimento, muitas vezes cobrindo vários municípios ao mesmo tempo”, revela. Ele afirma, no entanto, que o programa de extensão rural nunca foi interrompido, apesar da carência de recursos, e que uma possível redução de cargos e atribuições na Cati “comprometeria de modo crucial o desenvolvimento da agricultura paulista”.

Para o engenheiro agrônomo Dr. Joaquim Adelino, vice-presidente da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC), alterações estruturais nos órgãos de extensão rural podem afetar a transferência de tecnologia desenvolvida nos institutos de pesquisa, que são parceiros do programa. “Para evitar que isso aconteça queremos conversar com o secretário de Agricultura para chegarmos num denominador comum. Tenho certeza de que ele compreenderá nossa preocupação”, diz.

Ao lado de entidades como a Associação Paulista de Extensão Rural (APAER), Associação dos Servidores da Assistência Técnica Integral (ASATI), Federação da Agricultura Familiar do Estado de São Paulo, Associação dos Funcionários da Fundação Itesp (AFITESP), Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de São Paulo (Fetaesp) e Sindicato dos Servidores da Defesa Agropecuária do Estado de São Paulo (Sindefesa-SP), entre outras, a APqC integra o Fórum de Entidades em Defesa da Agricultura Paulista, cuja proposta é buscar apoio junto à sociedade civil e poder Legislativo para que as proposições geradas pelo poder Executivo sejam levadas ao debate com os segmentos interessados. O “desmonte” da Cati é uma das questões prioritárias.

Atualmente a Cati conta com a dedicação de servidores que atuam em 594 Casas da Agricultura, 40 Escritórios de Desenvolvimento Rural (EDRs), 19 unidades do Departamento de Sementes, Mudas e Matrizes (DSMM), sendo 13 Núcleos de Produção de Sementes, cinco Núcleos de Produção de Mudas e um Laboratório Central, realizando ações práticas para o desenvolvimento da agricultura familiar, de acordo com a realidade de cada região.

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