Jardim Botânico de São Paulo completa 90 anos a serviço do conhecimento e da pesquisa sobre a flora brasileira

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O Jardim Botânico de São Paulo, um dos mais importantes da América Latina, completou 90 anos recentemente. Apesar de ser considerada um patrimônio cultural e histórico do Brasil, a instituição ainda carece de visibilidade. Esta é a opinião do pesquisador científico e ex-diretor do Jardim Botânico, Dr. Eduardo Catharino, para quem o espaço “não é constituído apenas de belezas naturais, mas desempenha um papel importante na conservação da flora e no desenvolvimento de pesquisas”.

Embora criado em 1928, quando o o naturalista Frederico Carlos Hoehne foi convidado a implantar um Jardim Botânico na área do antigo Parque Estadual das Fontes do Ipiranga (umas vasta região de mata nativa desapropriada pelo governo), o local viria a ser oficializado somente dez anos depois, em 1938, com a criação do Departamento de Botânica, na época ligado à Secretaria de Agricultura, Indústria e Comércio.

Desde então o Jardim Botânico tem avançado em sua missão de ajudar na difusão do conhecimento sobre plantas e fungos, bem como na preservação e no uso sustentável da biodiversidade paulista e brasileira, por meio da conservação ex-situ (cultivada) e in-situ (em seu ambiente natural). Em seus 360 mil metros quadrados há mais de 1,5 mil árvores, algumas delas ameaçadas de extinção, bem como o Museu Botânico Barbosa Rodrigues, estufas que abrigam plantas típicas da Mata Atlântica e exposições temporárias, entre outras atrações.

Para Dr. Catharino, o Jardim Botânico é “a principal porta de contato dos pesquisadores com a sociedade”, uma vez que o Instituto de Botânica, sediado no mesmo local, teria como princípio “a adequação da linguagem científica ao público em geral”. Por dia, mais de mil pessoas transitam pelo jardim e muitas delas são estudantes. Grupos escolares passam pelo programa de educação ambiental, que ocorre praticamente desde os primórdios. “Há fotos da década de 30 que registram a visitação de colégios. Nós levamos muito a sério a transmissão de informações acerca da nossa flora e a divulgação das pesquisas realizadas aqui. A educação ambiental é uma forma de passar adiante este conhecimento acumulado e em constante atualização”, diz.

Como prova de que pesquisas e ações ambientais continuam sendo feitas desde a fundação do Jardim Botânico, Dr. Catharino cita a recuperação do córrego Pirarungáua, que voltou à tona depois de 70 anos oculto sob um calçadão de tijolos. A renaturalização da nascente do riacho do Ipiranga, que remonta a fundação da área, custou pouco mais de R$ 2 milhões, mas trouxe um ganho de valor incalculável para a comunidade e o meio ambiente: o local registrou um aumento considerável no número de visitantes – o que fez ampliar o valor arrecadado com a bilheteria e impactou no orçamento do Instituto de Botânica; várias espécies de árvores em risco de extinção, retiradas das obras do Rodoanel, foram replantadas nas margens do córrego e vingaram; em consequência disto, verificou-se na região a incidência de novos animais e novas plantas em regeneração.

Nas palavras do pesquisador científico, o “apelo pela conservação” feito por este verdadeiro santuário ecológico contribui para a meta global da manutenção da biodiversidade para as futuras gerações. “Todas as pesquisas realizadas pelo Instituto de Botânica visam conscientizar as pessoas da importância das plantas em nossas vidas, além de desenvolver a percepção dos impactos das ações humanas sobre o meio ambiente”. Dr. Catharino afirma que nada é aleatório no Jardim Botânico. “Não plantamos qualquer árvore ou planta. Tudo é feito à base de planejamento. O jardim é um dos poucos lugares em São Paulo onde ainda há exemplares do raríssimo Jequitibá do Brejo, por exemplo”.

Segundo ele, o Jardim Botânico seria um “oásis em meio ao deserto de ignorância sobre nossa flora”. Ele acredita que o trabalho desenvolvido há quase cem anos pelos pesquisadores e funcionários evitou que a situação, hoje, estivesse ainda pior. “Infelizmente conhecemos mais a flora da Europa, ou a fauna da África, do que as nossas próprias flora e fauna. É um déficit muito grande de informação e de conhecimento que buscamos combater, dentro dos nossos limites. É claro que esse déficit impacta no desenvolvimento da pesquisa em botânica e a conservação ambiental no Brasil, uma vez que só se conserva o que se conhece”, avalia.

Ainda conforme o ex-diretor do Jardim Botânico, é fundamental que instituições como esta mantenham seu caráter público para que sigam exercendo sua função social. “Há bons jardins botânicos particulares, mas eles não têm coleções vivas, como as nossas, e nem compromisso com a pesquisa científica. É importante sempre destacar que o Jardim Botânico é uma fonte permanente de pesquisa e a razão da existência do Instituto de Botânica. É impossível desassociar um do outro”, afirma.

Bruno Ribeiro

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