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Entrevista com a Dra. Teresa Losada, referência na pesquisa de mandioca no Brasil

teresa

Por Bruno Ribeiro

A engenheira agrônoma Teresa Losada Valle, pesquisadora do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) desde 1983, é uma das maiores especialistas em pesquisas relacionadas a variedades de mandiocas no Brasil. Doutora em Genética e Melhoramento de Plantas pela Esalq-USP, Teresa aposentou-se recentemente, mas continua sendo procurada para falar sobre as pesquisas que ajudou a desenvolver na área da cultura da mandioca – pesquisas estas que são aplicadas em várias regiões do País e têm ajudado a melhorar a produção e a qualidade da alimentação de milhões de famílias.
Uma das pesquisas mais importantes lideradas pela Dra. Teresa Losada resultou na criação da IAC 576-70, mandioca desenvolvida a partir do cruzamento de diferentes variedades de plantas. Com coloração amarelada e até 40 vezes mais vitamina A do que a mandioca comum, esta variedade responde hoje por quase 100% da mandioca de mesa cultivada no Brasil e rendeu à pesquisadora o Prêmio Péter Murányi 2012, pela importância social e econômica que a variedade adquiriu.
No último dia 27 de fevereiro, Dra. Teresa Losada Valle voltou ao IAC, local onde dedicou décadas de trabalho, para falar com a reportagem da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC). Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

APqC – A senhora nasceu na Espanha e chegou ao Brasil sem conhecer a mandioca. Como foi que se interessou pela agricultura e especialmente por esta planta?
Dra. Teresa Losada – Cheguei ao Brasil em 1962, com oito anos de idade, para se juntar ao meu pai, que havia saído da Espanha uns anos antes, fugindo da crise. Apesar de analfabeto, meu pai valorizava muito o conhecimento. Ele dizia que o dinheiro pode comprar o mundo, mas só o conhecimento liberta o homem – e me incentivou a retomar os estudos que eu havia interrompido. Meus avós eram pequenos produtores rurais na região da Galícia; eles plantavam batatas e coisas do tipo. Então, a agricultura não era uma realidade muito distante para mim. No entanto, a decisão de estudar agronomia surgiu após uma fatalidade: com a morte do irmão do meu pai – um tio que já estava no Brasil antes da gente e de quem eu gostava muito – eu quis estudar Medicina, achando que com isso poderia evitar que as pessoas morressem (risos). Porém, um tempo depois, caiu em minhas mãos um livrinho da coleção “Primeiros Passos” chamado “O Que é Fome?”, e nesse livro descobri que a responsável pela maioria das mortes no mundo, a grande causadora das doenças fatais, é a fome. Eu fui estudar agronomia com esse ideal romântico de combater a fome para evitar a morte das pessoas.

Mas por que a mandioca ganhou sua atenção especial?
Isso foi totalmente por acaso. Eu nunca pensei em me tornar especialista nesta planta, até porque eu não a conhecia. Eu comi mandioca pela primeira vez quando cheguei ao Brasil, porque lá na Espanha não havia. Minha relação de pesquisadora com a mandioca se deu depois de formada. Por conta da minha formação em micro-organismos, fui contratada pelo IAC, em 1982, para me juntar a uma equipe que estava trabalhando com isto. Pouco depois, prestei concurso e fui aprovada, integrando-me ao quadro de funcionários. Como já estava trabalhando com pesquisa de mandioca, continuei nessa área e fui me interessando cada vez mais.

Como a variedade 576-70, que rendeu o Prêmio Péter Murányi ao IAC, foi desenvolvida?
Eu costumo dizer que, em pesquisa científica, as pessoas têm seus méritos próprios, mas nada se cria sozinho. O conhecimento se herda e se transmite. O trabalho de pesquisa com mandioca começou na década de 1930 e perdura até hoje no IAC, sendo considerado o mais antigo do Brasil. Então, a variedade 576-70 é fruto do trabalho ininterrupto de aprimoramento da mandioca de mesa. Ela nasceu do cruzamento com da variedade IAC 17-18, de raiz branca, com a SRT 797, de raiz amarela. Com isso obtivemos uma variedade que apresenta bom desempenho agrícola, como produtividade e resistência a doenças, além de alto teor nutritivo.

Que lugar a IAC 576-70 ocupa hoje na produção de mandioca no Estado de São Paulo?
Hoje a IAC 576-70 responde por quase 100% do plantio no Estado de São Paulo e pode ser encontrada em todos os comércios. Mas não está restrita ao território paulista; essa variedade é predominante em vários estados, como Mato Grosso do Sul, Paraná e Rio Grande do Sul, entre outros. Ela já tem inclusive uma versão melhorada, a IAC 6-01.

Recentemente foi veiculada uma reportagem do Globo Rural mostrando que uma cooperativa de produtores de mandioca em Goiás passou a utilizar a variedade 12-289, desenvolvida pelo IAC, e que a produção mais do que duplicou. Qual a diferença dessa variedade para a 576-70?
Basicamente, a diferença é que a 576-70 é comumente mais usada para a agricultura de mesa, enquanto que a 12-289 é voltada mais para a agricultura industrial, sobretudo para a fabricação de farinha, amido, etc. Além disso, esta última apresenta um teor alto de matéria seca, que se adapta melhor a qualquer tipo de solo. Em São Paulo ela nunca foi cultivada em grande escala, mas no Cerrado é a preferida dos produtores.

Segundo as Organizações das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), a mandioca é um alimento essencial para a erradicação da fome entre as populações de baixa renda. As pesquisas do IAC vão ao encontro dessa premissa?
Eu acredito que sim. Veja o exemplo da IAC 576-70: ela chega a produzir em dobro se comparada com outras variedades, além de ser resistente e adaptável. É um alimento muito popular no Brasil, as pessoas das áreas rurais costumam plantar no quintal, porque a mandioca é a garantia de que não faltará comida na mesa e ainda pode ajudar no orçamento da casa. Não é à toa que a mandioca se deu muito bem na África, porque atende à necessidade da agricultura atual com sustentabilidade e baixo custo.

Qual a relação do povo brasileiro com a mandioca?
Ela foi domesticada pelas populações indígenas, que nos deixaram um grande legado não apenas biológico, mas cultural. Um dos erros da academia é desconsiderar o conhecimento popular e é por isso que, na década de 1970, quando houve um boom do êxodo rural, entrevistei famílias que haviam migrado para a área urbana e percebi que o plantio de mandioca era uma prática que elas trouxeram para as cidades. Isso porque a mandioca era a garantia de que teriam alimentação e uma renda mínima, com a venda do excedente. Sem falar que a mandioca está presente na mesa do brasileiro em quase todo o território nacional, em suas mais variadas formas. Costumo dizer que a mandioca é como a cachaça: as pessoas têm uma ligação afetiva com ela.

Assista a reportagem do Globo Rural (clique aqui) que mostra como produtores de Goiás aumentaram a produção de mandioca e polvilho usando a variedade IAC 12-289.

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